Os muitos erros cometidos na resposta à crise da zona euro têm uma causa comum: a zona euro é uma grande economia fechada.
Cada um dos seus 17 membros é pequeno e aberto, ao passo que os líderes políticos que governam a zona euro têm uma mentalidade de pequena economia aberta - todos, sem excepção. Mas não só. A maior parte dos economistas ao seu serviço também usa pequenos modelos económicos abertos.
Neste momento, a incapacidade de ajustamento às necessidades de uma grande economia fechada é a principal força por trás da crise. Foi o raciocínio de pequenas economias abertas que deu origem a pacotes de austeridade orçamental descoordenados. No conjunto, tiveram efeitos profundamente negativos no crescimento, situação que os líderes das pequenas economias abertas não foram capazes - ou não quiseram - ver.
Um governante da zona euro ficou particularmente aborrecido com as críticas que fiz às políticas europeias no passado e recordou-me que os programas em questão foram pensados por alguns dos peritos mais qualificados dos estados membros, Comissão, Banco Central Europeu (BCE) e Fundo Monetário Internacional (FMI). Seriam, em minha opinião, atrasados mentais? Não usaria tal termo, mas das duas, uma: ou são mal informados ou estão a mentir. Custa-me a crer que pessoas com uma experiência sólida em macroeconomia e o mínimo sentido de honestidade defendam a ideia de uma contracção orçamental expansionista ou - menos grave, apesar de tudo - considerem que programas de austeridade coordenados não vão afectar o crescimento no curto prazo.
Jaime Guajardo, Daniel Leigh e Andrea Pescatori*, economistas do FMI, divulgaram recentemente novas provas empíricas sobre as contracções orçamentais expansionistas, com base num amplo leque de dados dos países da OCDE. Os resultados do seu estudo deitam aquela teoria por terra.
Os dados mostram que, em média, uma consolidação orçamental de 1% do PIB reduz em média o consumo privado real em 0,75% no espaço de dois anos, provocando uma queda no PIB real na ordem de 0,62%. Um país pode ter razões para impor medidas de austeridade, mas não pode iludir-se e pensar que não terão impacto macroeconómico.
Os economistas europeus não desistem facilmente de uma teoria com base em provas empíricas. Para eles, o fracasso do programa grego deve-se a factores externos que estão além do seu controlo. Não admira, por isso, que a consequência de um programa de austeridade gorado seja um novo programa de austeridade.
O que dizer do BCE? Para sermos justos, temos de reconhecer que tem sido a única instituição na UE a encarar a zona euro como uma economia única. Aliás, não seria correcto acusar o BCE dos constrangimentos legais a que tem de obedecer e que, embora muitos comentadores não o admitam, lhe reduz particularmente a margem de manobra. No entanto, importa lembrar que cometeu dois erros nos últimos três anos. Em 2008 e novamente este ano, quando levou a cabo uma subida prematura das taxas de juro. Fê-lo porque se comprometeu a atingir uma meta de inflação ambiciosa e assimétrica para manter a inflação abaixo de 2%, dando origem a um desvio na sua política. Uma das primeiras tarefas do presidente do BCE, Mario Draghi, é reduzir agressivamente as taxas. Outra, mais subtil, implica que o BCE esteja mais atento ao impacto das suas políticas no resto do mundo.
Podemos resumir assim o dilema da zona euro: a soma de 17 pequenas economias abertas é igual a uma grande economia fechada, enquanto a soma de 17 governantes de pequenas economias abertas é igual a 17 governantes de pequenas economias abertas, que se reforçam mutuamente.
Quer-me parecer que a cimeira de Domingo não vai acrescentar nada à resolução da crise.
*Expansionary Austerity: New International Evidence, IMF Working Paper 11/158, July 2011
Tradução de Ana Pina
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Wolfgang Münchau, Editor associado do "Financial Times"
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