Quando chegou à América, Tocqueville espantou-se não só com a importância da religião na vida pública americana, mas acima de tudo com a relação entre a liberdade e a religião.
Ao contrário da Europa, onde estavam normalmente de costas voltadas, entre os americanos andavam de mãos dadas. Ainda hoje encontramos nesta questão uma das maiores diferenças entre os dois lados do Atlântico. A verdade é que na Europa a luta pelas liberdades fez-me muitas vezes contra os dogmas da religião.
A situação pode estar a mudar. Não é que a religião se tenha transformado num forte aliado da liberdade, mas o futuro das liberdades na Europa pode exigir o respeito pela religião. Estas reflexões vêm a propósito do debate da semana passada no "Prós e Contras" sobre o casamento entre homossexuais. Devo dizer que essencialmente por uma questão de liberdade individual, sou a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo. É uma escolha individual que não diz respeito a ninguém, a não ser aos próprios. Além disso, o casamento civil é uma forma de protecção de uma vida a dois que os homossexuais merecem, do mesmo modo que os heterossexuais.
Devo, contudo, acrescentar que a maioria dos militantes do "casamento gay" mostra uma concepção profundamente anti-liberal da política. O que, à partida, deveria ser apenas uma luta por direitos e liberdades, transformou-se num exercício de claro cinismo e, mais grave, de absoluta intolerância e de uma superioridade moral inaceitável. O cinismo apareceu durante a discussão de um possível referendo à questão. É óbvio que muitos opositores do casamento ‘gay' defendem o referendo porque acham que seria a maneira de impedir a alteração na lei. Mas passa-se exactamente o mesmo no campo oposto. São contra o referendo porque têm medo de perder. E não vale a pena enganar as pessoas. Será que já pensaram no mal que fazem à democracia com estas posições instrumentais sobre o referendo?
A intolerância e a superioridade moral surgem no modo como tratam os opositores do "casamento ‘gay'". Entre todos os que falaram no programa, não consegui ouvir um único que respeitasse a posição dos seus opositores como legítima. São todos, no mínimo, "homofóbicos". Será que a militância impede de se discordar, mas respeitar as opiniões diferentes? Pelo que vi, sim; e é um sinal preocupante. É aqui que aparece a "agenda escondida". Para além da questão do casamento ‘gay', a motivação mais profunda, de muitos (não de todos, sublinhe-se) é um ataque à religião e a um modo de vida conservador. Aquela discussão foi um bom exemplo de como, muitas vezes, as lutas de libertação se tornam rapidamente em novas formas de opressão. O direito à diferença também inclui um modo de vida conservador e muito próximo da religião. E deve ser defendido por todos aqueles que valorizam a liberdade, mesmo que não o pratiquem.
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João Marques de Almeida, Professor universitário
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