Sócrates continua a sua saga contra os liberais, esses malfeitores que querem ficar com as nossas empresas e com os nossos melhores activos.
Primeiro foi a entrevista que deu a esse jornal liberal que é o "Financial Times" - que nos chamou de estúpidos e colonialistas - em que disse que as ‘golden shares' são um bom instrumento para se limitar "a liberalização total da economia". Agora foi a vez de o nosso primeiro-ministro falar ao menos liberal "El País". Em inglês ou em espanhol, o tom da conversa é o mesmo. Desta vez acusou a Comissão Europeia - esses outros malvados que não nos querem deixar usar a ‘golden share' - de ter uma posição ideológica ultraliberal.
Este é o mesmo Sócrates que há dias, aquando dos 25 anos da assinatura do Tratado de Adesão à UE, e ao lado de Zapatero - esse senhor que é nosso amigo mas que não impediu que os papões da Telefónica viessem atacar a nossa PT - disse que "este é o momento de reafirmar valores europeus e de defender mais a Europa".
A grande maçada é que esses valores europeus prevêem a livre circulação de capitais e uma outra grande chatice que é a proporcionalidade dos direitos de voto, ou seja, 500 acções douradas, lá por serem do Estado, não podem valer mais do que quaisquer outras 500 acções, por mais ordinárias que sejam.
Mas Sócrates continua a dizer que não atropelou os direitos dos accionistas da PT que queriam vender a Vivo à Telefónica. Só lhes passou com um camião por cima. E quando esses mesmos accionistas, ainda atordoados, se preparam para arranjar uma alternativa para que a PT continue no Brasil - uma fusão entre a PT e a Oi, tal como o Diário Económico noticiou no sábado - aparece Vieira da Silva a dizer que o melhor é deixar o mercado funcionar. Este negócio é uma "responsabilidade que cabe exclusivamente à empresa e aos seus responsáveis". É caso para dizer... Oi? Será que percebi bem? O mercado a funcionar?
As ‘golden shares' em Portugal surgiram associadas às privatizações, para evitar a deslocalização de empresas estratégicas, como é o caso da PT. O Estado já teve uma ‘golden share' na Cimpor e na Siderurgia Nacional e hoje, ironia do destino, são ambas controladas por capitais vindos do Brasil. Esse país onde Sócrates quer que a PT continue a dar cartas e onde o PT de Lula se desviou dos trabalhistas e pôs a economia a crescer mais de 5% ao ano.
E já que falamos em privatizações, é importante não esquecer que o Governo prevê arrecadar 6 mil milhões de euros de receitas de privatizações até 2013. Empresas que o Estado vai privatizar e vender a esses senhores que são liberais e especuladores quando as coisas correm mal, e investidores quando estamos à rasca de dinheiro.
E é no mínimo curioso ler o PEC e ver a justificação que o Estado dá para privatizar: "O Estado passará a partilhar riscos e a colher benefícios de uma gestão ‘market oriented' e quiçá melhor preparada para enfrentar os desafios da liberalização do mercado". É deliciosa a parte da "liberalização do mercado" e o pormenor linguístico do ‘market oriented'. Como dizem os advogados daquele país neoliberal onde se fala essa língua: "I rest my case".
____
Pedro Sousa Carvalho, Subdirector
Comentários (11)
Publicidade
Acções do PSI 20




