Não é habitual abordar o mesmo assunto em duas colunas consecutivas; por outro lado, os acontecimentos políticos no Irão também nada têm de habitual e merecem um exame mais atento.
No fim de semana, um grupo de religiosos tornou pública uma declaração considerando as eleições presidenciais de Junho ‘inválidas'. Muitos insistem em anunciar o advento da democracia secular no Irão, somando esta condenação moral aos protestos públicos, numa aritmética corrosiva da legitimidade do regime.
Sucede que a legitimidade do regime iraniano não assenta no respeito da vontade popular expressa em eleições democráticas; decorre da legitimidade e autenticidade das narrativas religiosas reconhecidas pelas autoridades xiitas. A tendência cismática do islamismo não deve ser subestimada: o xiismo, ele próprio resultado de um cisma, subdivide-se em escolas interpretativas. Algumas advogam a abertura teológica à racionalidade filosófica, mas a escola interpretativa a que pertence Khomeini, iniciada por Kulaini no séc. X, caracteriza-se pelo rigor exegético e pela auto-suficiência canónica. A revolução islâmica de 1979 produziu por isso um regime onde o conceito de sociedade civil é destituído de significado: o Irão é uma comunidade teológico-política, onde a legitimidade de governação é exclusiva dos Imãs. Qualquer tentativa de secularização colide com a natureza do regime e ameaça a posição social da classe clerical, cujo prestígio e riqueza são indissociáveis da adjudicação da lei. A existência de características seculares, como eleições, deve-se às contingências históricas da revolução e ao compromisso de Khomeini com os liberais, que lhe facilitou a tomada do poder. Para os discípulos de Khomeini, a falsificação dos resultados eleitorais não é necessariamente uma acção moralmente reprovável: pode ser justificada como ‘taghiyeh' -uma táctica necessária à preservação da comunidade dos crentes.
A luta pela legitimidade tem uma componente retórica fundamental e as acusações sistemáticas de interferência externa devem ser entendidas neste contexto. Em parte também são ‘taghiyeh', uma tentativa de manipulação dos sentimentos anti-britânicos dos iranianos, contrapondo a tutela religiosa contemporânea à tutela colonialista do protectorado de facto estabelecido por Lord Curzon através do acordo Anglo-Persa de 1919; procurando equivaler a interferência clerical nas eleições à interferência externa na tentativa de deposição de Mossadeq, em 1953. Mas são mais do que isso: Khomeini denunciava a democracia como um "engodo colonialista" para destruir a comunidade espiritual islâmica, pelo que a tentativa de responsabilização do ocidente pela instabilidade pós-eleitoral faz parte da argumentação legitimadora do regime.
É possível que o regime de tutela religiosa entre em desagregação, mas isso não representará o triunfo de uma teleologia progressista que não reconhece causas perdidas, impasses e dilemas trágicos. Simplesmente, como recordava Nietzsche, as cobras que não se libertam da sua pele, morrem. Quando, é matéria de adivinhação.
Comentários (6)
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Nós somos os melhores, sempre, mais justos, mais sábios, modernos e bem sucedidos, mais belos de todos, que até chateia, god!
O fundamentalismo iraniano, na forma com se estravasa para o exterior, não é muito diferente do pudor frenético de boa parte dos aficionados republicanos dos Estados Unidos. Por vezes a diferença está numa túnica monocromática ou num par de calças de ganga cowboy. Uma coisa, porém, claramente os distingue. Os segundos são livres de pensar e de agir. Aos primeiros,foi-lhes ensinado que ser-se livre é pecado.
Quando o Papa Católico der oportunidades e direitos iguais às Mulheres, aí sim, merece ser ouvido e respeitado. Agora, pregar para fora, não o praticando dentro de casa, é "pecado papal". ASem perdão ! Deixem lá os Iranianos viver com as suas tradições !
Não é dificil de perceber, se nos imaginarmos todos como cidadãos do Vaticano.Essas "modernices" das liberdades democráticas não existiriam e as mulheres teriam o lugar bem definido na sociedade :parir e servir.Numa coisa seríamos como os iranianos:odíariamos os judeus.