Se Portugal está em “morte lenta”, como diz a Moody’s, ontem sofreu um grande espasmo. Se está a caminhar para uma “situação explosiva”, como lhe chamou Cavaco, acendeu-se ontem o rastilho, com os estilhaços vindos da Grécia.
O descalabro no mercado da dívida e a queda das bolsas seguiu-se às declarações do comissário europeu dos Assuntos Económicos, Joaquin Almunia, que voltou a colocar Grécia e Portugal no mesmo saco: défices orçamentais consideráveis, falta de competitividade e uma grande dependência do financiamento exterior.
O ‘timing' escolhido não poderia ter sido pior, porque ontem Portugal estava precisamente a tentar financiamento lá fora. Ao mesmo tempo que Almunia falava, Portugal tinha aberto o livro de ordens aos investidores internacionais para vender 500 milhões de euros de dívida de curto prazo. Os investidores, com medo de estar a levar para casa um barril de pólvora escondido, queriam comprar a dívida nacional ao desbarato o que levou as Finanças a optarem por encolher a colocação para apenas 300 milhões no mercado, pagando, mesmo assim, o juro mais elevado dos últimos 12 meses.
Resultado desta mistura explosiva: o ‘spread' da dívida nacional face à dívida alemã disparou, as bolsas afundaram e o ‘credit default swap' de Portugal - o custo de fazer um seguro da dívida pública nacional, não vá o barril explodir - foi o que mais subiu no mundo, ultrapassando o nível de risco de países como a Turquia, a Rússia, as Filipinas, a Indonésia e a Colômbia.
Esta situação, a manter-se, é particularmente grave sobretudo porque este ano Portugal vai ter de encontrar financiamento para tapar o buraco do défice que se estima de 8,3%. Só em juros, o Governo está a prever pagar este ano, num cenário menos incendiário, 5,3 mil milhões de euros.
E esta factura não vai baixar só com o barafustar contra as agências de ‘rating'. É um discurso para consumo interno mas que causa indigestão aos investidores internacionais que nesta altura colocaram Portugal, Itália, Grécia, Espanha (que os anglo-saxónicos chamam sarcasticamente de PIGS) como alvo a abater.
A receita para a engorda dos cofres públicos e para tapar o buraco das contas públicas há muito que está identificada e não vamos lá só com aspirina. É preciso operar. O Dr. Vítor Constâncio, à sua maneira, recomenda aumentar os impostos indirectos, o FMI fala em subir o IVA, e já há quem recomende o tratamento de choque da Irlanda, a descida dos salários. É verdade que podemos não morrer da doença mas sim da cura. Mas é um risco que temos de assumir.
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Pedro Sousa Carvalho, Subdirector
pedro.carvalho@economico.pt
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