Nesta semana ficámos a saber que a Espanha enfrenta um problema orçamental com contornos muito próximos do português. Segundo o governo espanhol o défice vai ficar próximo dos 8%, 2% acima do valor projectado pelo governo de Zapatero.
São más notícias para Portugal. A austeridade vai ser substancialmente reforçada, como o novo governo já anunciou, com efeitos imediatos no arrefecimento económico, senão mesmo recessão em 2012. A Fitch acabou de projectar zero de crescimento para 2012 e não me surpreenderia que este valor seja rapidamente revisto em baixa. Os programas de autoridade - a história recente ensina-nos - sistematicamente subestimam o seu próprio efeito. Esta realidade em Espanha tem duas consequências muito negativas para as empresas portuguesas. A primeira e mais óbvia, é a de que a exportação para Espanha, relembre-se, o nosso primeiro destino exportador, vai ficar sob pressão, com menor procura por parte das empresas e consumidores espanhóis. A segunda, menos visível, é a de que as empresas espanholas vão acrescidamente sentir o mesmo tipo de pressão que as empresas portuguesas já sentem há mais de 2 anos. Perante a contracção do mercado interno, os mercados externos serão a opção para muitas empresas de mitigar a redução do mercado interno, o que significa naturalmente maior atenção ao mercado contíguo - o português - gerando maior concorrência às empresas nacionais e após alguns anos em que se verificou algum abrandamento, depois de uma entrada fulgurante de muitas empresas e produtos espanhóis em Portugal. Mas esta concorrência espanhola também se fará sentir em termos de competição internacional noutros mercados, em sectores e produtos em que as empresas nacionais procuram crescer, já que há muitos pontos de contacto nos perfis exportadores das duas economias ibéricas. Este quadro de acrescidas dificuldades que muitas empresas espanholas vão continuar a defrontar, terá ainda um efeito adicional sobre a economia portuguesa, promovendo novos processos de centralização ibérica, com o fecho de operações de suporte em Portugal, visando a redução de estruturas e de custos, que tenderá a gerar mais desemprego (e frequentemente qualificado) que só não atingirá maiores proporções porque esse movimento de centralização ibérica já ocorreu maciçamente na década passada.
O ano de 2012 vai ser especialmente difícil para as economias portuguesa e espanhola. Do ponto de vista laboratorial, seria até uma experiência interessante, não fosse o dramatismo da situação, analisar-se as diferentes opções e nuances das políticas de austeridade dos dois países e os respectivos resultados que se obterão. Apesar de Espanha ter um défice orçamental em 2011 similar ao que Portugal teria (sem medidas extraordinárias) e objectivos igualmente similares para o défice de 2012, os nossos vizinhos têm duas enormes vantagens. Estão muito menos endividados e, pelo menos por ora, não tendo opção sobre a necessidade de um plano de austeridade, têm ainda vários graus de liberdade - sem Troika à ilharga - sobre o modo como o vai concretizar.
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António Gomes Mota, Professor na ISCTE Business School
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