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Os 162.500 novos quartos de hotel até 2014 são fruto de uma “euforia excessiva”. Não há turistas nem procura.
O Brasil já não é só futebol, carnaval e samba. Hoje o país é marcado por ser uma das quatro economias do mundo com maior potencial de crescimento mas também pela instabilidade cambial, por ter um complexo sistema fiscal e laboral e muitas dificuldades de contrair empréstimos junto da banca brasileira. Quem o revelou foram três experientes gestores de grupos hoteleiros portugueses com unidades no Brasil - Vila Galé, Pestana e Dom Pedro -, durante um seminário promovido em Lisboa pela ADIT Brasil (Associação para o Desenvolvimento Imobiliário e Turístico do Brasil).
Com a organização do Campeonato do Mundo de Futebol em 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016, os brasileiros estão com uma "euforia excessiva" segundo Jorge Rebelo de Almeida, presidente do Vila Galé, que tem já cinco unidades no Brasil. A previsão do presidente da ADIT Brasil, Luiz Lessa, é que estes dois eventos levem à criação de 162.500 novos quartos de hotel no mercado brasileiro até 2014. Para José Roquette, administrador do grupo Pestana, este é "um número absurdo e um risco enorme". "Eu nem quero acreditar que isso é possível", disse o responsável do grupo que entrou no Brasil há 11 anos.
E porque são os 160 mil quartos descabidos aos olhos dos empresários portugueses? "É preciso pensar o que se vai fazer depois com essa oferta", afirmou José Roquette, porque enquanto Espanha recebe 55 milhões de turistas por ano, o Brasil recebe cinco milhões. "Barcelona, que é um destino turístico consolidado e bem sucedido tem 20 mil quartos, vamos fazer 15 Barcelonas no Brasil?", questiona Roquette.
Empresários aconselham realismo
Para Luís Correia da Silva, especialista em turismo e consultor da Agesco, consórcio dos portugueses no projecto Aquiraz Riviera, "é extraordinário como é que o Brasil tem tão poucos turistas estrangeiros". Por isso, "é preciso ter os pés assentes na terra e perceber que os investimentos são muito altos e de longo prazo na área do turismo", avançou o especialista.
Mas não deixam de existir "oportunidades extraordinárias no Brasil para as empresas portuguesas, principalmente no Nordeste", local onde Vila Galé se preparam para inaugurar ainda esta semana o Vila Galé Cumbuco e o grupo Dom Pedro abre, em meados de Dezembro, o Dom Pedro Laguna, ambos os complexos turísticos são no Ceará.
O presidente da ADIT Basil disse que o país está numa fase de maturidade, onde existem oportunidades reais para os investidores. Uma opinião partilhada pela APEMIP (Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal), que se referiu ao Brasil como "um país cheio de oportunidades, muito mais seguro do que Angola para o investidor estrangeiro", sublinhou Luís Lima.
No entanto, Jorge Rebelo de Almeida deixa o aviso: "O Brasil é um mercado muito trabalhoso, o sistema laboral é muito difícil e o sistema fiscal é caro e complicado". José Roquette complementa dizendo que é "um país completamente imprevisível e que as coisas nunca são tão cor-de-rosa como querem pintar".
Para o grupo Pestana, a ameaça do excesso de oferta "é preocupante porque o Brasil não tem capacidade de absorver o que se avizinha". Além disso, José Roquette alertou para outras dificuldades: "Fazer um hotel com o padrão de qualidade Pestana custa agora mais 50% do que há três anos; o nível de endividamento é muito alto com as taxas de juro altíssimas; muito risco cambial e imprevisível; a fiscalidade é um inferno e o licenciamento muito burocrático".
Luís Correia da Silva completou com o facto de " os bancos brasileiros não emprestarem dinheiro aos empresários portugueses. Só o fazem ao Estado e a empresas públicas". Mas ainda há paraíso por explorar no Brasil. O Ceará é um deles, garante o consultor.
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