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Grécia

Inquietação, desânimo e resistência antecipam o "acordo doloroso"

Lusa   Pedro Caldeira Rodrigues
09/02/12 14:13

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Inquietação, indefinição, desânimo, descrédito, são palavras instaladas no léxico quotidiano dos gregos, quando os líderes políticos ultimam o novo "acordo doloroso" com a troika e se aceleram os planos de privatizações.

Algumas centenas de pessoas concentraram-se no final de manhã de hoje em frente ao Parlamento de Atenas, desafiando os aguaceiros frios e agitando bandeiras cor de laranja do sindicato dos trabalhadores da indústria de energia.

Numa avenida perpendicular, as forças de intervenção barraram o caminho do protesto ao colocarem dois autocarros em toda a largura da estrada, com grupo de polícias anti-motim perfilados no local, bem equipados e atentos a possíveis desacatos.

O desfile e concentração, em protesto contra a anunciada privatização da companhia de eletricidade do Estado, foram afinal pacíficos. Nos rostos dos manifestantes, que no final da marcha se dispersaram em pequenos círculos, denota-se cansaço, apreensão.

"Somos trabalhadores da empresa pública de eletricidade, e neste momento o Parlamento está a votar a privatização da companhia. Receamos os despedimentos, as futuras condições de trabalho, os salários, o direito à segurança social", explica à Lusa um dos contestatários, que transporta uma bandeira sindical.

"A nível nacional a companhia de eletricidade emprega 21 mil funcionários, mas prevê-se o despedimento de 5000 pessoas já nos próximos dois anos", acrescenta este homem de meia-idade, que se exprime num inglês razoável. Muitos dos seus colegas, simplesmente recusaram-se a falar, e parecem transmitir uma crescente desconfiança face aos repórteres, aos estrangeiros, ou simplesmente a quem não fale a sua língua.

Empresas da China, da Alemanha, da França, já manifestaram interesse em adquirir esta empresa estratégica. "Sei que os chineses fizeram um negócio com a companhia de eletricidade portuguesa, talvez aqui se passe o mesmo", remata, antes de se juntar ao seu círculo de companheiros.

Num país "em saldo" e à beira de legitimar o "acordo doloroso" - expressões comuns nos media gregos numa referência ao novo plano de resgate da "troika" avaliado em 130 mil milhões de euros e que implica profundas medidas de austeridade - aguarda-se há semanas o desfecho deste dilema de proporções míticas: aceitar em toda a linha as novas imposições dos credores internacionais (FMI e União Europeia) ou enfrentar o incumprimento, primeiro passo para a saída do país da zona euro. E um salto para o desconhecido.

"Não sabemos o que fazer com o dinheiro. Mantê-lo aqui, depositá-lo no estrangeiro... Receamos que as consequência sociais sejam a desintegração do Estado social. A Grécia tornou-se numa nação de pequenos proprietários que emergiram com o neoliberalismo, à semelhança do que fez Margaret Thatcher no Reino Unido, e que agora querem salvaguardar a todo o custo o que pensavam ser permanente", desabafou à Lusa um funcionário público ateniense.

É esta nova classe média, em crise, que continua a percorrer a rua Ermou, no coração comercial da velha Atenas, onde os saldos nas lojas de marca chegam aos 70%. Parecem tentar manter uma ilusão de poder de compra, que deixou de existir.

E os gregos, cansados da crise, viram-se para o desporto, que pode fornecer efémeras alegrias, ou tentam a sorte na lotaria, para manterem alguma esperança. Em paralelo, e apesar de mais uma súbita exigência do líder da direita nacionalista que integra o governo de "unidade nacional", o novo plano de resgate prepara-se para ser aprovado em breve.

Na madrugada de quinta-feira, Giorgos Karatzaferis disse que a única questão por resolver se relaciona com as pensões de reforma suplementares, em princípio também submetidas a novos cortes. As declarações foram interpretadas como uma nova manobra política do líder nacionalista, que tenta estancar a erosão eleitoral do seu partido, revelada pelas últimas sondagens.

Esta tática também tem presidido às declarações dos dois restantes partidos que desde 11 de Novembro integram o governo de Lucas
Papademos, o PASOK (socialista) e a Nova Democracia (conservadores).

No entanto, a presença hoje do ministro das Finanças, Evangelos Venizelos, na reunião do eurogrupo em Bruxelas, é um sinal de que o novo plano da troika está muito perto de ser legitimado. Em resposta, os sindicatos já anunciaram a convocação de mais uma greve geral antes da votação final do "acordo doloroso" pelo Parlamento, prevista para domingo.

 





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