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Fernando Gabriel

Homens-bolha

11/11/09 00:01 | Fernando Gabriel 



A menos que tenha um interesse profissional no assunto, é natural que, tal como eu, preste pouca atenção à evolução dos preços do imobiliário.

A minha indiferença habitual explica-se por uma variante do conselho de ‘miss' Prism a Cecily, na peça "The Importance of Being Earnest", de Oscar Wilde. Quando ‘miss' Prism ordena a Cecily que estude Política Económica, recomenda-lhe que ignore o capítulo sobre a desvalorização da rupia, acrescentando que "mesmo estes problemas metálicos têm o seu lado melodramático".

O estertor hedónico do final da era vitoriana é uma memória distante e os tempos de democracia ilimitada impõem limites severos à indiferença aristocrática, pelo que a enfadonha questão dos preços dos activos terá de ser ocasionalmente suportada, mesmo quando é indissociável de melodramas monetários. Ao longo dos últimos meses, os preços do imobiliário britânico subiram cerca de 7%, uma proeza para uma das mais anémicas economias da UE em matéria de crescimento económico. Não sendo o excesso de procura consequência de um efeito de riqueza, é certamente uma proeza pouco recomendável -e aqui inicia-se o melodrama monetário. A principal explicação para a sobreavaliação do imobiliário é a política monetária fortemente expansionista prosseguida não apenas pelo banco central britânico mas também pelo FED e pelo BCE, que mantêm o custo nominal do dinheiro artificialmente próximo do zero. Como resultado, os juros pagos pelos títulos de dívida pública são muito baixos, o que confere um poderoso incentivo às instituições financeiras para os converterem em dinheiro e investirem em activos com maior rentabilidade noutras economias. Os preços do imobiliário em diversos países asiáticos já mostram sinais evidentes de sobreavaliação, tal como os preços de diversos activos com elevado risco.

Dito de outro modo; para evitar os efeitos económicos recessivos do rebentamento da última bolha especulativa, os governadores dos principais bancos centrais optaram por uma estratégia perspicaz: criar novas bolhas especulativas globais, usando a mesma receita que propiciou os sarilhos anteriores. A melodramática desvalorização da libra e do dólar americano e as taxas de juro baixas são convenientes para os respectivos governos satisfazerem a sua incontrolável mania de gastar sem pagar o ónus político do aumento dos impostos correntes, acumulando dívidas públicas gigantescas, mas, como advertiu Nouriel Roubini, afectuosamente conhecido por dr. Doom desde a crise de 2008, o custo de endividamento em dólares não pode continuar a descer indefinidamente.

É impossível que os governadores dos maiores bancos centrais não saibam a catástrofe potencial que estão a preparar e que se recusam a evitar mantendo as trajectórias de expansão monetária. Só a enorme pressão política para adiar os custos decorrentes da redução da despesa pública explica esta corrida cega dos homens-bolha em direcção ao precipício da próxima crise financeira, e se a táctica produz benefícios políticos conjunturais é porque há demasiados eleitores como Cecily, dispostos a ignorar os melodramas monetários.
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Fernando Gabriel, Investigador universitário


Comentários

vg, | 11/11/09 00:32
As taxas de juro têm de subir rápidamente,apesar de ,como diz o anúncio, "não se fabricar mais terra".O modelo de capitalismo financeiro liberal veio para ficar e se reproduzir.Os politicos (e com eles todos nós)estão na mão dos banqueiros


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