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Castástrofe

Haiti: Você dá. Mas será que eles recebem?

Ângela Marques  
25/01/10 08:52

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É hora de tratar dos vivos no Haiti. Madonna já o fez e o leitor provavelmente também. Cruz Vermelha, UNICEF, Cáritas, todos estão concentrados em ajudar. Mas é preciso ficar atento

Uma fraude não faz a Primavera. Mas pode assustar muitos passarinhos. O sismo que destruiu o Haiti não parece ter destruído (até porque ainda está para ser inventada uma escala de Richter que meça isto) a vontade de ajudar do resto do mundo. A verdade é que não resistimos a fazer uma chamada de valor acrescentado, encher um saco do Banco Alimentar, mandar um colchão para África. E (abra-se espaço para a opinião como género jornalístico) ainda bem. Só que de boa fé estão os escritórios de advogados cheios. Enquanto a sua contribuição vai daqui ao Haiti, muito se pode perder. Pelo menos é que garante um trio de economistas do MIT que anda a estudar o assunto.

Dizem eles que todos os anos, com ou sem tragédias como a do Haiti, os países ricos pegam nos seus trocos e mandam-nos para os países pobres. Mas que esse dinheiro, até ver, não trouxe a prosperidade que se esperava. É que ainda há 210 milhões de crianças a trabalhar quando deviam estar nas salas de aula e mais de mil milhões de pessoas não tiveram o suficente para comer em 2009. Para que ninguém os acuse de apontarem os erros mas não darem soluções, o trio de economistas do MIT está a liderar um movimento global que promete apurar porque é que isto acontece. "Muito dinheiro é gasto por pessoas bem intencionadas que não têm ideia do que estão a fazer", disse já publicamente Abhijit Banerjee, um dos economistas da equipa.

Essas pessoas bem intencionadas de que Banerjee fala são quem recebe os donativos recolhidos por instituições como a UNICEF, a Cruz Vermelha, a Cáritas. Que nos últimos dias não têm tido descanso. Madalena Marçal Grilo, directora executiva da UNICEF Portugal, explica porquê: "Desde a ocorrência do sismo, a UNICEF já enviou para o Haiti, por avião e por terra, vários carregamentos com bens de primeira necessidade como sais de reidratação oral para combater a desidratação provocada por infecções diarreicas, pastilhas para purificar água, jerry cans, kits de higiene e de cozinha, oleados e tendas para abrigo temporário." E acrescenta que desde quarta-feira foi criado um corredor para o envio da ajuda humanitária até Port au Prince. "Estão a ser preparados mais sete aviões que deverão sair de Santo Domingo com tendas, artigos relacionados com a água e saneamento, saúde e nutrição. A UNICEF está a fornecer água a 80 mil pessoas por dia em trinta pontos de abastecimento na capital e 120 mil litros diários aos hospitais", diz.

E como é que a UNICEF em Portugal segue o rasto do dinheiro que envia para o Haiti? "As verbas que angariamos em Portugal são sempre transferidas para a sede da UNICEF, que as canaliza para os programas de emergência ou de desenvolvimento a longo prazo em mais de 150 países em desenvolvimento. No caso do Haiti, os donativos que temos recolhido destinam-se a apoiar a acção de emergência. Neste momento, o abastecimento de água e o saneamento, a higiene, a nutrição, a protecção infantil e a educação são as principais prioridades." Segundo Madalena Marçal Grilo, "proteger as crianças que perderam ou ficaram separadas dos seus pais ou familiares é especialmente importante, pois correm riscos acrescidos não apenas de doença e subnutrição, mas também de exploração e tráfico".

Quando a fraude acontece

Ainda havia pessoas nos escombros de Port au Prince e já havia quem, num lugar não identificado do mundo, se tentasse aproveitar delas. Assim que se apercebeu disso, a Cruz Vermelha fez o alerta: "Foram registadas situações de websites e emails fraudulentos que estão a utilizar o emblema e o nome da Cruz Vermelha para solicitar donativos de apoio às vítimas do sismo no Haiti."

Christopher Lamb, do gabinete de fraudes da Cruz Vermelha internacional, explica: "Fomos avisados desta fraude por pessoas que nos ligaram a dizer que havia um site a pedir dinheiro para o Haiti com o nosso símbolo. Tentámos descobrir como podíamos fechar o site, mas para isso temos de saber onde é que ele foi criado. Queremos falar com as autoridades do país onde vive o autor do site para que o possa fechar."

Quando tudo corre pelo melhor, a Cruz Vermelha recebe donativos que podem ir dos dez aos cem mil euros. E garante que não há desvios. "Temos procedimentos para impedir que haja desvios." Até porque, explica, "a ajuda que damos não é só um paraquedas a deixar cair comida". Os donativos que são recolhidos por todo o mundo são concentrados em Genebra e é a partir dali que se tomam decisões: "Tentamos investir o dinheiro também em recursos que possam ajudar um país que sofre uma tragédia como o Haiti a recuperar-se, a reconstruir-se."

É disto que o trio do MIT fala: investimento. Banerjee, Briton Rachel Glennerster e Esther Duflo criaram o Jameel Poverty Action Lab para mostrar que não são daqueles que apontam os defeitos mas não encontram as soluções. De acordo com a publicação Fast Company, os três criaram uma rede global de investigadores que tem um objectivo: transformar as condições de vida de 100 milhões de pessoas em África, na Ásia e na América Latina. E isto nos próximos cinco anos, com apenas 10 milhões de dólares. Como? Criando modelos de desenvolvimentos que podem realmente mudar a vida das pessoas.

Exemplo: uma equipa liderada por Banerjee foi até a uma aldeia da Índia perceber porque é que só 5% das crianças estavam imunizadas. Chegaram à conclusão de que ou as enfermeiras não apareciam para dar as vacinas no centro de saúde ou as mães não levavam lá os filhos. Baseando-se numa teoria económica sobre incentivos, a equipa especulou: e se déssemos presentes às mães sempre que viessem? Fizeram a prova: a um grupo deram as vacinas, a outro deram as vacinas e um quilo de lentilhas. A taxa de vacinação do segundo grupo cresceu 37%. Matemático.

Para já, no Haiti, ainda se tenta sobreviver. Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa, diz que Portugal está a ajudar. "E felizmente já havia uma Cáritas no Haiti. Por isso, o dinheiro que temos recolhido é canalizado directamente para eles. E tudo é mais fácil quando é possível haver uma comunicação directa." Para já, o dinheiro que a Cáritas tem juntado serve para responder às necessidades básicas. "No futuro, quando entrarmos nos projectos de desenvolvimento, teremos de agir de outra maneira. Nessa altura, que será de reconstrução, destacaremos para lá uma equipa que irá aferir como é que o dinheiro está a ser utilizado. Não podemos garantir como o dinheiro é gasto ao cêntimo, mas vamos ver o que está a ser feito."

Sabendo das fraudes, o responsável garante que os portugueses podem ficar descansados. "O dinheiro que estamos a enviar para lá vai directamente para o povo." E o povo bem precisa: as notícias dão conta de 500 mil pessoas sem casa. Essas 500 mil pessoas estão instaladas em 447 campos de desalojados. Destes, só três têm água potável. E foi também por isto que numa entrevista ao "Le Monde", Edmond Mulet, coordenador interino da Missão da ONU para a Estabilização do Haiti confessou que a equipa das Nações Unidas enfrenta um pesadelo de logística no Haiti. É no meio deste pesadelo, diz o trio do MIT, que muito dinheiro se pode perder.

 





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