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Santos Silva lamenta uma determinada ostentação a que hoje se assiste em Portugal, um País muito desigual.
O ‘chairman' do BPI fala da sua visão da banca, da sua relação com o dinheiro e dos caminhos que o sector deve hoje seguir.
A banca é, por vezes, vista como um sector cinzento, sem o romantismo de outras profissões. Qual é, para si, a sua grande sedução?
O lado em que sentimos mais o que estamos a fazer é o das operações activas, do crédito. Apostar em bons projectos e em empresários. É muito interessante poder ajudar o País a crescer e a desenvolver-se. Podermos ter uma influência nesse percurso através da forma como redistribuímos a poupança. Um aspecto capital é saber gostar das pessoas, a começar por aquelas com quem trabalhamos. É também muito importante intervir nos mercados monetários e financeiros e saber antecipar as suas direcções. Finalmente, nunca podemos esquecer que servimos interesses públicos ao captar as poupanças de todos e orientando-as para quem delas pode fazer uma utilização criadora de riqueza para o País.
Que valores devem estar sempre presentes no gestor de um banco?
Primeiro o mínimo ético, que é a lei. Segundo a ética, ou seja, o respeito por determinados valores que estão acima da lei. Depois a lealdade. As pessoas esperam de um banco competência e lealdade. A competência é um pressuposto, mas a lealdade é um valor fundamental para fidelizar relações.
A lealdade que refere, não é apenas um discurso, não é ‘marketing'?
Acho que não. Aqueles que vencem são aqueles que não largam o cliente na primeira dificuldade. No tempo do BPA havia um grande banco que, à mais pequena dificuldade, puxavam o tapete. E o cliente nunca mais esquecia. Por outro lado, o comportamento de uma instituição tem muito a ver com a relação afectiva que cria na sociedade em geral. No fundo, são os afectos que levam as pessoas a estar mais com uns do que com outros.
Quem atinge um determinado nível de riqueza tem um dever moral de devolver parte à sociedade? Alguns milionários americanos, por exemplo, fazem-no...
Na América há a ideia de que devemos devolver à sociedade o que ela nos proporcionou. Sobretudo numa sociedade muito desigual como a portuguesa, todos devemos fazer isso. Dou uma parte importante do meu tempo a causas públicas, sem receber qualquer remuneração.
A relação que hoje se tem com o dinheiro mudou? É mal visto o ganhar-se bem?
Há um novo riquismo na sociedade portuguesa pouco saudável. Temos uma sociedade das mais desiguais da União Europeia e em que muitos gostam de ostentar o que ganham. É natural que posturas como esta gerem atitudes de juízo negativo.
A interrupção feita no percurso da banca privada em Portugal, com as nacionalizações, impediu que a banca pudesse estar hoje mais longe?
As nacionalizações do sector bancário e das grandes empresas foram um erro enorme que se fez a seguir ao 11 de Março [de 1975]. Perdeu-se capital financeiro e humano, com um impacto muito negativo sobre a economia portuguesa. Hoje estaríamos muito melhor se não tivessem ocorrido as nacionalizações. E acredito que os nossos bancos poderiam ter hoje muito mais expressão do que têm.
Por onde passa o futuro da nossa banca? Como é que ela se mantém portuguesa e com um centro de decisão nacional?
O que é importante é continuar a internacionalização. Se estivéssemos numa economia extremamente pujante, a prioridade era aproveitar plenamente o mercado que melhor conhecemos. Por outro lado, num período de grande incerteza o fundamental é resistir, aguentar e ser mais eficiente. Neste momento não vejo que uma fusão vá eliminar essa preocupação e pode até criar problemas novos.
Estamos com a crise de volta, talvez pior que há dois anos. Em 2008, na primeira crise financeira, pecou-se por não passar uma mensagem devidamente realista, de que o crédito fácil acabara?
Há responsabilidades das políticas nacionais e das europeias. A primeira preocupação da Europa foi a de combater a crise com uma política expansionista, tal como os EUA fizeram. Manter a economia aquecida e criar condições para que o mercado que desapareceu por força da crise fosse substituído por uma procura estimulada pelo Estado. Todos pensavam que, em 2010, iria continuar uma política de relaxamento relativamente ao défice público e à dívida do Estado, tal como em 2009. Mas a crise do Dubai e depois a grega, criaram uma grande desconfiança sobre as dívidas soberanas. Mais recentemente, está a ser feita uma correcta mobilização de todos para os sacrifícios a fazer para enfrentar uma fase muito exigente e complexa.
É necessária uma alteração estrutural da banca, que foi, afinal, uma das beneficiadas pela alavancagem e do forte crescimento do crédito?
Não nos podemos esquecer que essa alavancagem beneficiou também empresas, particulares e os Estados. Mas é indiscutível que há uma excessiva alavancagem mundial de todos os agentes. É fundamental que o processo de desalavancagem seja gradual e tenha objectivos realistas. Em Portugal, os bancos deverão dar grande prioridade ao apoio às PME, privilegiando ainda a promoção da inovação do nosso tecido empresarial. Relativamente aos particulares, especial atenção deve merecer o crédito à habitação, assente em critérios mais prudentes, e sobretudo a oferta de instrumentos que estimulem um aumento da poupança, desvalorizando o crédito ao consumo.
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