Universidades

10 Abr 2012

“Há um défice de diplomados em engenharia na Europa”

Madalena Queirós
“Há um défice de diplomados em engenharia na Europa”

As instituições de ensino superior têm que apostar em dar aos jovens diplomados competências para a empregabilidade diz Pedro Lourtie, professor do Instituto Superior Técnico em entrevista ao programa “Capital Humano”.

H á um défice de jovens com diplomas na área das ciências, engenharias e tecnologias na Europa. Para debater estratégias para atrair mais jovens para estas áreas, as maiores escolas de engenharia europeias reúnem-se esta semana em Lovaina, revela Pedro Lourtie, professor do Instituto Superior Técnico e um dos pais da Declaração de Bolonha, em entrevista ao programa Capital Humano do Económico TV.

Quais as competências determinantes para conseguir um emprego?
A definição de competências, que encontramos frequentemente, é a capacidade de mobilizar os conhecimentos, capacidades e atitudes para resolver os problemas, mas essa é uma definição restritiva. Quando falamos de competências, em termos de documentos políticos das organizações internacionais, abarcamos tudo: conhecimentos, competências, capacidades e atitudes. Não há competências se não houver conhecimento. Mas as competências são a capacidade de mobilizar esses conhecimentos. Não basta ter conhecimentos porque isso é quase ser uma enciclopédia. Se não formos capazes de aplicar esses conhecimentos de pouco servem. Isso tem a ver com atitudes. Recordo uma intervenção do presidente do BPI, feita recentemente, em que considerou essenciais as seguintes competências: hábitos de trabalho, capacidade de enfrentar problemas, saber pensar e construir propostas e capacidade de trabalhar em equipa. Competências que, no seu entender, são as mais importantes e distintivas. Ter a capacidade de iniciativa e liderança são competências cada vez mais importantes para o mercado de trabalho. O que me interessa saber é se são capazes de liderar, trabalhar com os outros, e de apresentar e defender um projecto junto da administração ou de um cliente. E também a capacidade que têm de aprender ao longo da vida.

Como é que as instituições de ensino superior podem ensinar essas competências?
Tradicionalmente o que se fazia nos cursos de ensino superior era uma lista de matérias que eram ensinadas. O Processo de Bolonha veio alterar esta realidade. Aliás como é dito na legislação que transpôs o processo de Bolonha para Portugal, o ensino passa a ser baseado em competências e não naquilo que o professor ensina.

Isso pode ser desenvolvido nos alunos?
Isso pode desenvolver-se nos jovens a partir das oportunidade de aprendizagem que são criadas. Não podemos basear o ensino num professor que debita conhecimento, na esperança que estes conhecimentos entrem na cabeça dos alunos e fiquem lá. Os alunos perante as situações em que são colocados procuram resolver os problemas e desenvolvem as suas capacidades. Mas não posso pedir que um aluno que tenha iniciativa, se ao longo do curso o que faço é querer que ele esteja sossegadinho e sentado nas aulas, numa posição passiva. Tenho que valorizar a sua iniciativa.

E criar instrumentos de avaliação que o fomentem?
Exactamente. Há um livro "Alinhamento construtivo" muito interessante sobre método de ensino - aprendizagem em que diz que o processo só funciona bem, se se definir claramente o seguinte: quais os objectivos da aprendizagem, definir um método que esteja de acordo com esses objectivos e uma avaliação que valorize efectivamente esses objectivo. Até porque os alunos se orientam pelo método de avaliação.

Os cursos onde há menos desemprego em Portugal, de acordo com a análise que fez, são os sectores da segurança, saúde, ciências, veterinária e engenharias... Há um défice de engenheiros em Portugal...
Não sei se em Portugal, neste momento, há um défice de engenheiros, com as dificuldades que há de desemprego. Mas há um défice europeu de formações nestas áreas. Portugal não é dos países piores em termos de número de diplomados nas áreas das ciências, tecnologias e engenharias. Há outros países em que a procura dos estudantes por essas áreas é muito menor.

Por isso, as principais escolas de engenharias europeias vão reunir-se para definir formas de atrair mais alunos para essas áreas?
É um projecto que já decorre há algum tempo, o "projecto Attract", em que definimos algumas áreas de trabalho: qual o papel dos engenheiros nos diferentes países; quais as limitações formais para entrar nos cursos de engenharia; para além de discutir iniciativas nacionais e internacionais para atrair mais estudantes para os sectores da engenharia e como atrair mais raparigas para as áreas da engenharia.

As mulheres estão em minoria nas engenharias...
Tipicamente, apenas um quarto de estudantes são raparigas. Embora, em Portugal, sejam um bocadinho mais. Uma das iniciativas de género passa por atrair mais raparigas para o ensino superior. Há programas especiais que estão a ser desenvolvidos nos países nórdicos para atrair mais raparigas para estas áreas. Também é verdade que, quando olhamos para os resultados dos alunos de 15 anos que são avaliados no PISA da OCDE, verificamos que as raparigas têm melhores resultados a leitura e piores a matemática e ciências. Isto certamente que influencia as escolhas. Porque as jovens quando chegam ao final do ensino secundário quando têm melhores resultados a leitura vão mais facilmente para estas áreas.

É preciso intervir logo no ensino secundário...
Sim. Acho que trabalhos que promovam as áreas das ciências e tecnologia, como o programa Ciência Vida são importantes. Mas também nos serviços de orientação vocacional há um trabalho a fazer. O que queremos é identificar as melhores práticas que estão a ser seguidas para levar mais jovens para a área das engenharias.

x
Recomendadas
x
Social
    0 LEITORES ONLINE

    Comentários

    "O Económico apela aos leitores para que utilizem este espaço para um debate sério e construtivo, dispensando-se, para o bem de todos, o insulto e a injúria gratuitos. Desaconselha-se o uso exclusivo de maiúsculas e a repetição de comentários. Comentários inadequados devem ser denunciados e quando tiverem mais de cinco denúncias serão eliminados. O IP do leitor não será revelado mas ficará registado na base de dados".
    ir para o topo