A crise. Ainda a crise. Sempre a crise. E sempre a tal oportunidade retórica...
Para muitos que confiavam no homem de Davos, o tal "mamífero mais evoluído do planeta", como lhe chamou o deputado conservador britânico Michael Gove, a decepção não podia ser maior. O Forum de Davos, que anualmente reúne nas montanhas suíças as elites políticas, empresariais e dos media, fez prova da profunda decadência e desorientação que atravessam o nosso mundo. Os relatos confirmam que não faltou aparato, muita festa e guarda-costas. O habitual. Só que desta vez não havia nada para celebrar. Apenas embaraço e dúvida. A tentação da metáfora da Montanha Mágica contagiou os cronistas: o Forum qual sanatório de Davos. Decadência à espera de cura. Enquanto alguns economistas sublinhavam o advérbio "honestamente" para confessarem nada saber sobre o que nos espera, o número dois do FMI, John Lipsky, afirmava uma certeza: "É seguro que as próximas notícias vão ser piores." Esclarecidos. Desgraçadamente, como no mito de Sísifo, estamos ainda na fase em que a pedra continua a rolar montanha abaixo.
Davos habituou-se a celebrar o triunfo do mercado sem fronteiras sobre o Estado, muito embora os líderes políticos tenham sempre aproveitado as montanhas suíças para se projectarem nas suas fronteiras nacionais. Agora, todos reclamam por mais Estado e mais regulação. Transfiguraram-se por necessidade, sem convicção. Basta olhar para os homens de Wall Street que, tendo desbaratado tanto capital de confiança e obrigados a recorrer ao bolso do contribuinte, nem por isso abdicaram dos chorudos bónus de fim de ano. Bem pode clamar Obama por vergonha e responsabilidade! Basta olhar para o governo do presidente dos EUA. São já dois os nomeados, para a Saúde e para a reforma do Orçamento, que se demitem a braços com problemas fiscais. Mesmo os mais críticos das políticas de Bush se desabituaram de pagar impostos...
O período que estamos a atravessar não é uma mera crise ou recessão. Não é um linear ajuste de contas. É uma transformação profunda nos valores e no modelo económico e social. Demorará o seu tempo, precisará de informação mais precisa e de mais transparência, precisará de fiabilidade, responsabilização e punições justas. Demorará... Precisará... Para já, a certeza é de dias sombrios, desconfiados, cinzentos, quebrados pela destruição imparável do emprego, privação do trabalho, destruição de riqueza, desigualdades desmedidas, tão grandes como as dívidas que nos atrelam de geração em geração. Recuperar o valor do trabalho como factor de criação de riqueza, reconstruir a harmonia possível nos consumos energéticos e regrar a economia global são ideias que vão fazendo caminho. Por enquanto, ninguém parece acreditar que sejam mais do que isso.
Resta o Estado como refúgio para se evitar o caos. Não julgo que o regresso ao Estado protector seja o novo paradigma. Será uma etapa transitória para novas ousadias mais libertas de pecados recentes. Entretanto, cultivamos pessimismo em tempo de convalescença. Foi assim nas montanhas mágicas de Davos e não era costume. Será, diz quem passou por lá, uma amostra lúgubre do que nos espera, mais do que uma pneumonia de circunstância.
Perante tanta profecia da desgraça, fixei-me num optimista de passagem pela brancura helvética. Moisés Naím deixou-nos cinco razões de optimismo, que vale a pena reter:
1. Os enfartes ajudam a mudar hábitos, que é como quem diz, um susto facilita a adopção de uma dieta regeneradora;
2. Renovação política, sinónimo de mudança porventura imune à tentação autoritária, populista ou nacionalista;
3. Novas lideranças com ideias novas, não apenas na política, mas também nas empresas, universidades, meios de comunicação...
4. Mais inovação em todos os sectores. Há quem diga que nunca foi tão pródiga e que está prestes a gerar uma nova revolução tecnológica;
5. Mais generosidade do que nunca. Multiplicam-se mecenas e filantropos, a Internet espalha solidariedade. Razões para acreditar num mundo melhor. Ou outras tantas para o contrariar.
Se fizesse leis, decretava o optimismo. Guardemos o pessimismo para dias melhores...
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António José Teixeira, Jornalista
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A ganância do lucro fácil fez com que os meios de produção fossem transferidos para os países ditos emergentes, China e Índia para produzirem bens baratos, a serem consumidos nos países desenvolvidos, acabando por arrasar o sistema de produção destes últimos e consequente desemprego em massa...Efeitos duma liberalização desordenada que destruiu as regras básicas da concorrência...O regresso ao proteccionismo aduaneiro parece inevitável...E a solução que resta é chamar ao consumo os milhões de chineses e indianos que estão fora dele!...Computadores a € 15,00 talvez sejam bem entregues a quem os produz!...
Numerosos estudam em várias áreas mostram que os portugueses são dos povos mais pessimistas da Europa. Em tempos de crise económica é natural que o problema se agrave e que haja tentativas de aproveitamento político
pelos DEMAGOGOS QUE ANDAM POR AÍ. O azar deles é que os portugueses são pessimistas mas não têm memória curta, como mostram as sondagens.
Surpreende é que tudo tenha acontecido,quando a América encontrou um"Messias"
Mais do que estímulos à economia, necessitamos rever o capitalismo. E... de caminho, partir alguma louça. É que não foram só Greenspan, Bush e Madoff. Foi tambem Hank Paulson (a falencia do LB), as agencias de rating, o Sr Gordon Brown (sim, sim), a propria The Economist, etc.
Revejam tudo. Não tenham medo.
Tanto piriquito engravatado entusiasmado com a globalizazação e agora, sim agora, apregoando o "made in USA" isto é, o patriótico proteccionismo ! no meio desta "tragédia de cifrões" qual o papel de Greenspan & Companhia ?
A crise não é para todos. E quem tem a barriga cheia farta-se de arrotar optimismo, mas isso não chega.