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Ainda fumega o edifício neoclássico que albergava o cinema Attikon, um dos mais belos de Atenas, no rescaldo de uma noite de violência.
Existe um sentimento de choque e espanto nas expressões, que também denunciam cansaço. A violenta noite de domingo em Atenas, desencadeada por grupos de jovens organizados e após a polícia ter recebido ordens para dispersar mais de 100 mil pessoas frente ao Parlamento, em protesto contra a aprovação do novo doloroso plano de resgate para o país e legitimado no início da madrugada, dominava todos os comentários, noticiários, capas dos jornais.
E os atenienses confluíam par a avenida Stadiou, e com mágoa fotogravam o velho edifício onde os bombeiros procediam às operações de rescaldo.
Pelo caminho, sinais da devastação. Pedaços de mármore que serviram de armas de arremesso arrancadas às grandes colunas da praça Syntagma, caixas de multibanco desfeitas, montras partidas, lojas incendiadas, semáforos destruídos.
Equipas de limpeza mobilizavam-se para recolher os despojos da batalha, enquanto em alguns cafés, com as esplanadas destruídas, trabalhadores incitavam a reconstrução das estruturas. "A polícia atacou a manifestação de ontem porque o povo podia invadir e incendiar o Parlamento. Nesta situação as pessoas já não têm mais nada a perder, o nosso país está a saque", diz Dimitri, 30 anos, após fotografar os escombros enegrecidos e os ferros retorcidos do cinema Attika, agora uma enorme ruína a céu aberto. Toda a zona parece ter sido bombardeada.
"Era um dos mais belos cinemas da Grécia e de toda a Europa, um antigo museu que foi transformado em cinema. Um amigo arquiteto disse-me que vai ser impossível reconstruí-lo, o telhado abateu e toda a estrutura está danificada", lamenta.
Dezenas de pessoas, e de jornalistas, concentram-se na avenida, numa manhã de chuva e onde um trânsito infernal tenta contornar os veículos dos bombeiros, que ainda despejam toneladas de água para o interior das ruínas. Ao lado, luxosas de marca também não foram poupadas, com restos de roupas queimadas e manequins derretidos.
Alguns transeuntes mais exaltados insultam jornalistas estrangeiros, que filmam e tentam registar reações. O incêndio do cinema Attikon tornou-se no centro de todas as atenções.
"É muito mau. Parece que os gregos estão a destruir a sua civilização. Isto pode ter sido provocado pela própria polícia, por grupos anarquistas, por marginais. Quem sabe?", sugere Dimitri.
Por toda a manhã, nos canais informativos, a devastação de Atenas, mais que a situação política, foi o tema dominante, e quando a cidade ainda recupera do choque e do espanto.
Mas o canal privado Mega também voltou a recordar a megamanifestação de domingo, e imagens de dois respeitados anciãos atenienses que compareceram no protesto: o conhecido compositor Mikis Theodorakis e o político Manolo Glezos, que em 1941, logo após a ocupação alemã da
Grécia no início da II Guerra Mundial, iludiu os guardas e retirou durante a noite uma grande bandeira nazi que esvoaçava no Pártenon, elevando o espírito de resistência da população.
Os dois idosos colocaram máscaras de gás, foram carinhosamente acolhidos pelos populares e retirados apressadamente quando as primeiras granadas de fumo ecoaram na praça Syntagma. Para muitos gregos, estes dois "velhos sábios" permanecem um exemplo.
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