Das últimas eleições legislativas saiu um Parlamento mais dividido e um Governo sem apoio maioritário. O Presidente teve uma queda abrupta de popularidade, saindo fragilizado de um episódio que ninguém compreendeu.
O maior partido da oposição, alternativa de Governo, está mergulhado numa crise de identidade, sem liderança, fraccionado em torno de projectos pessoais. O país sofre os efeitos do ‘tsunami' que atingiu o sistema financeiro mundial e provocou uma recessão de que já não havia memória.
As nossas debilidades crónicas - défices de contas públicas e das transacções com o exterior, endividamento do Estado e do país, fraco crescimento económico - pioraram com a crise internacional, obrigando o Estado a aumentar o défice pelo crescimento das despesas na ajuda à economia e despesas sociais decorrentes do desemprego e na perda da receita dos impostos.
Neste cenário, José Sócrates está confrontado com dificuldades por que nenhum primeiro-ministro terá passado após a estabilização democrática no actual regime.
Sem o conforto de uma maioria parlamentar, a acção reformista do Governo está limitada. É certo que as oposições não se atreverão a chumbar o orçamento ou a reunir-se para derrubar o Governo, já que seriam penalizadas pelos eleitores. A questão, pois, não é a de sobrevivência do Governo.
A questão é que este Governo não tem condições para prosseguir nas reformas de que o país necessita. É um Governo de gestão, pelo menos até á próxima eleição presidencial, na esperança de que se abra então um novo ciclo político. E as dificuldades que o novo Governo vai enfrentar não resultam apenas do jogo das forças políticas. Residem sobretudo nos poderes fácticos - nas corporações instaladas dentro do Estado, no poder burocrático que tende a resistir ao poder político democrático, numa comunicação social irresponsável. Naturalmente que estes poderes e contra-poderes aproveitarão a fragilidade de um Governo minoritário para fazerem valer os seus interesses contra o interesse geral.
Alguns optimistas estão a dizer que as reformas que impõem legislação estão feitas, daí que aconselhem ao Governo gerir em consenso. Acho que se enganam. Se José Sócrates deixar cair o seu pendor reformista e a coragem de resistir às pressões corporativas, se não tentar com determinação cortar na despesa corrente do Estado, manter e melhorar a política seguida na Educação, apontar os caminhos que a Justiça tem de seguir para inverter o caminho para o seu descrédito, melhorar as condições para o investimento interno e externo, etc, etc, poderá chegar ao fim do mandato, mas terá perdido a confiança dos sectores mais dinâmicos da sociedade.
Uma nota à margem: o M.P. reivindica em tom carregado que é preciso aumentar os prazos do segredo de justiça. E se começasse por dar o exemplo, passando ele próprio a garantir o cumprimento do segredo? Que legitimidade tem para a reivindicação se diariamente se cometem crimes de violação do segredo - nalguns processos sistematicamente e com claros motivos manipuladores - na total impunidade?
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Advogado
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Sócrates é reformista? Não dei por isso durante o seu mandato. É verdade que alguns articulistas se têm encarregado de fazer passar essa mensagem. Não vislumbro, por mais que me esforce, que tenham acontecido reformas.
O País sofre de um atavismo funcional, que é confrangedor. Para a maioria dos portugueses, ter que movimentar-se na teia administrativa e burocrática é uma tarefa hercúlea, labiríntica, onde apenas alguns, poucos, conseguem movimentar-se.
Aqui, reside o grande factor de atraso no desenvolvimento do País. Consomem-se energias, desperdiça-se tempo, recursos financeiros e humanos, para gáudio de alguns, pois é talvez a forma que têm, de mostrar algum poder e de provarem a necessidade da sua existência como funcionário. Que fique claro, que não considero essas pessoas culpadas. A culpa aqui, cabe exclusivamente a quem legisla, e a quem dirige. Quem dirige tem obrigação de assumir a condução dos serviços de forma eficiente.
Temos alguns exemplos de que o que acabo de dizer, corresponde à verdade. O anterior director geral das contribuições e impostos, com a sua intervenção, conseguiu melhorar de uma forma evidente a função desses serviços, fazendo com que se tivessem recuperado verbas de impostos, que se consideravam talvez irrecuperáveis. Pode assim este governo melhorar o deficit público durante algum tempo.
Temos todos nós, de fazer um grande esforço, no sentido de falar com verdade, com muita clareza e com muito sentido de responsabilidade, de tudo quanto se prenda com a condução dos assuntos do estado. A responsabilidade é maior, nas pessoas que ocupam na sociedade, mercê do que esta lhe proporcionou, lugares de mais destaque, seja na hierarquia do estado, seja nos meios de comunicação ou similares.
Muito bom dia .