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Um costume caricato que geralmente se ouve nas noites das eleições é quando todos os partidos festejam vitória.
Ou porque tiveram mais votos que os outros, ou porque subiram face à eleição anterior, ou porque não perderam tanto como as sondagens anunciavam ou porque são o PCP que, como se sabe, não perde eleições há 30 anos. É possível que exista até uma doença registada na Organização Mundial de Saúde para explicar esta reacção de júbilo, um tipo de "vírus de manipulação pós-eleitoral" que atinge grupos de risco como dirigentes dos partidos políticos e para a qual ainda não foi descoberta qualquer vacina eficaz?
Ora, lendo jornais recentes parece ter sido encontrada uma nova variante do vírus. É essa variante que está agora a causar dores de cabeça, indisposições e febres nalguns intelectuais e deputados dos partidos mais à esquerda do Parlamento recém-eleito, levando-os a escrever manifestos com o objectivo de obrigar José Sócrates a governar "à esquerda". E tudo porque, dizem eles, foi essa a "vontade" do povo português manifestada nas últimas eleições: que houvesse entendimentos à esquerda para o PS governar à esquerda.
Aqui, muita atenção às palavras. Reparem que, para eles, "governar à esquerda" significa governar com cedências e acordos com o Bloco de Esquerda e PCP. Para estes políticos passionais, o facto de o PS poder governar sozinho em minoria, negociando pontualmente no Parlamento não significa "governar à esquerda". Para o PS ser de esquerda tem de contar forçosamente com os desejos do PCP e do Bloco. Trata-se, sem dúvida, de uma interpretação original. Mas é nestes instantes que importa lembrar ao Bloco e ao PCP que, embora tivessem crescido nas últimas eleições, ocupam ainda um espaço minoritário. Percebo o objectivo, mas convém não esquecer que PS e PSD (e CDS) ainda representam o grosso essencial do eleitorado. E há uma lista interminável de matérias a respeito das quais as pontes entre PS e PSD são mais claras do que as existentes entre os partidos de esquerda. Os eleitores do PS não foram os eleitores do Bloco. É simples.
Além disso, estes defensores de uma convergência entre o PS e os restantes partidos de esquerda estão, como de costume, a pedir que Sócrates lhes dê aquilo que nem eles própios conseguem dar. Se o Bloco e o PCP andam quase sempre entretidos com traições e insultos mútuos, como é que se pode exigir a Sócrates que una o que a realidade política desuniu?
Eu sei aquilo que os assusta: a futura influência, ainda por esclarecer, do CDS de Paulo Portas no governo do PS. A mim parece-me que a única vontade interpretável das eleições é esta: quem deve governar é o PS. Como e com quem, é lá com eles.
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Pedro Lomba, Jurista
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