As críticas ao chamado ‘Governo Sachs’, assente na contratação dos melhores através de uma remuneração proporcional, pode ter os dias contados.
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As críticas ao Goldman Sachs sobem de tom, quando o banco se prepara para oferecer bónus generosos.
Os escritórios do Goldman Sachs no 10ª andar de um prédio de Washington têm uma vista privilegiada para o Capitólio e convidam o olhar a perder-se no horizonte. Mas, nesta semana, não era essa vista que despertava a atenção mas sim os acontecimentos na rua, palco de uma manifestação. Organizada pelo sindicato SEIU, os manifestantes atacavam o Goldman pelas suas ligações invulgarmente estreitas ao governo - de entre os antigos quadros deste banco podemos encontrar antigos secretários do Tesouro norte-americano, membros da Casa Branca e reguladores de vários países -, pelos lucros enormes e por estar a oferecer milhares de milhões de dólares de bónus numa altura em que um em cada dez americanos estão desempregados.
Estes protestos juntam-se às críticas de que Goldman tem vindo a ser alvo nos últimos meses. Este banco, que prestou a maior parte da assistência ao governo e voltou a ocupar uma posição cimeira em Wall Street, foi apelidado de vampiro pela Rolling Stone ou ridicularizado pelo Saturday Night Live por ter recebido um lote prioritário de vacinas contra a gripe A. O seu director executivo, Lloyd Blankfein, foi também fortemente criticado pelos líderes religiosos depois das declarações proferidas numa entrevista onde afirmou estar a fazer "O trabalho de Deus".
As desculpas apresentadas por Blankfein pelo papel do Goldman na crise e a decisão deste banco em afectar 500 milhões de dólares no espaço de cinco anos para ajudar as pequenas empresas norte-americanas pouco fez para atenuar as críticas. Dada a sua decisão de atribuir bónus chorudos, a questão que agora se levanta é saber se este banco vai conseguir ultrapassar esta perda de popularidade, sem que isso afecte a sua capacidade de fazer dinheiro.
O receio na sede do Goldman em Broad Street, na baixa de Manhattan, é que os reguladores, políticos, e até mesmo os investidores, possam contrariar dois marcos fortes da sua cultura: a sua cultura intrincada e implacável, marcada por remunerações elevadas e as suas estratégias de negociação agressivas.
Guy Moszkowski, analista do Bank of America perguntou recentemente a Blankfein: "Como é que a sua empresa vai conseguir fugir ao escrutínio da imprensa e ao sentimento de fúria que parece estar a abater-se sobre o banco? Como é que o Goldman vai conseguir reter o seu pessoal chave, dadas as controvérsias em torno dos pacotes de remuneração?" Blankfein respondeu que o seu pessoal era o mais produtivo de Wall Street e que a sua empresa sempre se caracterizou por ajudar os seus clientes a fazer negócio.
O Goldman está a ser vítima de uma recuperação muito rápida das suas contas, depois de uma crise que pôs em perigo a sua própria existência. Depois da falência do Lehman Brothers, em Setembro do ano passado, o Goldman e o seu arqui-rival Morgan Stanley viram a cotação das suas acções cair quando os investidores começaram a confiar menos na viabilidade de apostar em mercados de capitais caprichosos e mais nos mercados de capital para resolverem as suas necessidades de financiamento. No espaço de poucos dias as autoridades autorizaram o Goldman e o Morgan Stanley a tornarem-se empresas detentoras de bancos. Esta medida permitiu-lhes receber milhares de milhões de dólares de ajuda governamental e colocou-os sobre a égide reguladora da Reserva Federal.
A conversão em banco lançaria também as bases para o renascimento do Goldman. Ao fim de 15 meses a olhar para o abismo, o Goldman conseguiu angariar milhares de milhões de dólares junto dos investidores, incluindo de Warren Buffett; recebeu e amortizou dez mil milhões de apoio estatal; e conseguiu fazer 12,5 mil milhões de lucros nos primeiros nove meses de 2009. As suas acções recuperaram fortemente e os seus 30 mil empregados provavelmente levarão para casa um cheque de recompensa bastante chorudo no final do ano.
O bom desempenho do Goldman assentou em dois grandes pontos fortes: o seu compromisso no sentido de fazer dinheiro, na sua qualidade de firma e não de grupo de indivíduos; e a sua coragem em matéria de negociação e de regulação.
Na Wall Street dos tempos modernos o Goldman tem algo que poucos podem imitar: uma cultura interna muito coesa apostada na maximização dos lucros. "Algo que se tem mantido nos últimos cinquenta anos: uma forte aposta no sucesso comercial e uma recusa em perder dinheiro", afirma um antigo executivo. Um concorrente invejoso afirma que, quando falou de obra divina, Blankfein devia ter acrescentado que, na religião do Goldman, Deus e o Maná são a mesma coisa.
Os fundamentos da fé que predomina no Goldman's foram sendo desenvolvidos durante 130 anos, desde que foi fundado, em 1869, pelo imigrante alemão Marcus Goldman, até 1999 quando, depois de anos de agonia, se tornou numa empresa cotada. Os executivos de topo do Goldman continuam a ser chamados de ‘partners', são ordenados num processo bianual que é alvo de maquinações infindáveis e que provoca grandes celeumas junto daqueles que são "despartnerizados" sumariamente por não passarem na amostra.
Aqueles que conseguem ascender ao lugar de ‘partne' devem comportar-se mais como donos do que como empregados - por exemplo, não vendendo a suas acções antes da reforma.
As proezas do Goldman em matéria de negociação não são apenas uma questão de evitar perdas. Ao cultivar relações em matéria de negociação e de consultoria com milhares de empresas e de investidores, o Goldman obtém assim conhecimento que usa depois na sua própria negociação.
A realidade é que, nas palavras de um gestor de fundos, os investidores "negoceiam com o Goldman não por quererem mas porque se vêem obrigados a fazê-lo". Essa mesma pessoa acrescenta: "As informações fornecidas pelo Goldman são tão válidas como as informações que avançamos. O Goldman não pára de chatear os clientes e eles voltam sempre."
As críticas repetidas contra o chamado "Governo Sachs", a rede de relações com antigos executivos como Hank Paulson, o secretário do Tesouro no tempo da crise, ajudam a aumentar a percepção de que o famoso modelo do Goldman, assente na contratação dos melhores, pagando-lhes devidamente e mantendo o contacto com todos aqueles que foram trabalhar para o Estado, pode ter os dias contados.
Exclusivo Financial Times
Tradução de Carlos Tomé Sousa
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Os Norte-Americanos da Goldman Sachs, defensores do mercado livre e sem promiscuidade entre política e mundo empresarial, devem ter vindo fazer um case-study a Portugal, e implementaram por lá o que cá se faz há centenas de anos.