O meu primeiro artigo no Diário Económico, já lá vão três longos anos, intitulava-se “Armadilha Geracional”.
Procurava chamar a atenção para os riscos de uma classe de adultos, instalados nos seus direitos adquiridos, se tornar inaceitável para uma classe de jovens, impossibilitada de adquirir quaisquer direitos. Nesse sentido, o escrito - como alguns amigos me vieram agora recordar - parecia premonitório dos movimentos geracionais recentes.
Pois desenganem-se os amigos, que a armadilha de que vos falava não se esgota numa manifestação pacífica. É uma ferida muito mais profunda, que comporta bem mais riscos e que exige muito mais coragem para afrontar. Permitam-me colorir com números a profundidade desta ferida e a gravidade destes riscos.
Primeiro exemplo, o emprego, onde a rígida protecção dos já empregados, significa um incentivo à antiguidade e uma secundarização do mérito. Os instalados estão protegidos, os jovens são excluídos. Resultado, o emprego jovem, que em 2008 era de 16.4 % - quando a taxa de desemprego era de 7,6% - atingia, em 2010, 22,4% contra uma média de 10,8%. Só para reforçar, relembro que os jovens com ensino superior têm hoje uma taxa de desemprego de 26,1% contra uma taxa média de 7,1% entre todos os licenciados.
Segundo exemplo, a habitação. Também aqui o proteccionismo do arrendamento antigo criou uma desigualdade entre alguns com rendas desactualizadas e outros forçados à aquisição de casa própria. Situação agravada agora, com a escassez do crédito. Assim, sem contar com as rendas históricas (estimo 350 mil rendas aquém dos 100 euros), mesmo entre quem tem crédito à habitação existem desigualdades crescentes.
Actualmente, quem tem crédito paga, em média, 2,1% e uma prestação média de 262 euros, enquanto os que pretendam comprar dificilmente ficarão com taxas abaixo dos 4%. Quem, por exemplo, comprou casa nos últimos três meses, pagou 2,96% e já tem uma prestação de 345 euros.
Terceiro exemplo, o peso do Estado, que não é mais do que a soma dos nossos activos e passivos comuns. Ora, no que respeita aos passivos, a nossa dívida per capita de 2008 a 2010 passou de cerca de 10.200 euros para 13.050 euros, sem se descortinar qualquer movimento idêntico de reavaliação dos activos do Estado. Temos, assim benefício presente e responsabilidade futura.
Esta situação não é de agora, não é apenas portuguesa, nem é responsabilidade de alguns. É o resultado do nosso modelo social, que insistimos em defender em nome de um preconceito qualquer. É que esse modelo assenta numa solidariedade intergeracional que já não tem sustentabilidade. Queira-se ou não, será necessário redistribuir sacrifícios...geracionalmente.
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António Ramalho, Gestor
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