Os episódios arrancavam sempre da mesma forma. Mr. Phelps, o líder de uma sofisticada equipa de agentes secretamente patrocinada pelo governo norte-americano, recebia um envelope com fotografias, pistas e uma engenhosa cassete cujo conteúdo tinha de ser visto e ouvido no momento: era assim que a equipa recebia as instruções para mais uma missão impossível.
No final, o aviso de segurança: "Esta gravação irá autodestruir-se em cinco segundos. Boa sorte, Jim". E então tudo desaparecia num fio de fumo até não restar nada da mensagem que pudesse comprometer os agentes secretos.
A cena é, provavelmente, a mais marcante da popular série televisiva ‘Missão: Impossível'. Mas hoje, quando se encara a realidade portuguesa ou mesmo a europeia, há momentos em que essa ficção vem à memória. Passos Coelho pode não ser o mítico Mr. Phelps nem a ‘troika' lhe andou a entregar secretamente instruções para uma operação clandestina. Mas é verdade que Passos Coelho lidera hoje uma equipa encarregue de uma missão (quase) impossível de regenerar um País em frangalhos e que foi devidamente instruído pelos agentes do FMI, do BCE e da Comissão Europeia para o fazer com o mínimo de danos e espalhafato.
A partir do momento em que aceitou a missão, o Executivo português sabia que tinha de accionar um plano radical: chama-se austeridade e tem obrigado os portugueses às mais mirabolantes manobras de corte e contenção de que há memória nas décadas recentes. Passos Coelho tem seguido esse guião à risca, por vezes com mais rigor do que o exigido pela própria ‘troika' - uma atitude que lhe tem valido os aplausos da exigente crítica (leia-se, o mercado e os parceiros internacionais), mas menos créditos do público (no qual se incluem os portugueses forçados a alinhar num enredo em que não passam de figurantes mal pagos).
Mas essas cenas já todos estão cansados de ver. O problema desta história não está no cumprimento do papel que cabe a Passos Coelho e ao seu Governo. Com mais ou menos dor, o plano de contenção está em marcha, com cortes a eito e a direito, mas ainda não se vê o final feliz desta história. Que é o mesmo que perguntar: com tanta austeridade, quando é que o crescimento entra em cena?
O conselheiro do primeiro-ministro francês, Jean-Paul Fitossi, em entrevista ao Económico, não é o primeiro, nem será decerto o último, a alertar para os riscos de uma política exclusiva de austeridade imposta pela Europa e pelo FMI: "Não tem futuro". E, tal como a Standard&Poor's, também este economista reconhece que reformas assentes unicamente na austeridade, que não têm em conta o crescimento, são auto-destrutivas. Não deixa de ser irónico que o alerta parta do conselheiro de um governo que, aliado a Berlim, tem ajudado a definir as regras impostas aos parceiros economicamente mais fragilizados, como Portugal. O aviso, contudo, não é ficção. É urgente repensar o guião da austeridade e introduzir etapas de crescimento. Para evitar que, como na ficção, a economia portuguesa não se auto-destrua em cinco... quatro... três...
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Helena Cristina Coelho, Subdirectora
helena.coelho@economico.pt
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