Convém dizer aquilo que ainda não foi dito. Em Portugal, o governo Passos Coelho está a fazer uma revolução.
O Governo está a refundar o regime saído do 25 de Abril com um monumental desvio liberal. Com ou sem ‘troika', é preciso que os portugueses entendam que o País mudou porque a Europa mudou. Não adianta murmúrios sobre os direitos adquiridos quando o mundo da prosperidade centrado no consumo de bens sociais não tem sustentação económica. Portugal está em suporte de vida assistida. E não adianta o choque e a perplexidade de um PS que não entende o mundo em que vive e que se refugia nas inanidades cansadas de um cínico moralismo. Fica a certeza.
As ilusões de Abril morreram às mãos do PS, o novo regime começa com as reformas do Governo e o futuro ou está na bancarrota ou num mundo em que os portugueses terão de enfrentar a realidade sem o paternalismo do estado. O Portugal do futuro é o País da incerteza.
Mas quando se olha para Portugal também se observa a Europa. A Europa que desesperadamente procura o equivalente político da penicilina. A infecção representa a crise da dívida, o contágio generalizado, o colapso do euro, o abismo político, a regressão de meio século e um novo recomeço com perda de influência e de bem-estar. A Europa a que Portugal pertence é um continente doente que não sabe como se adaptar à ascensão do resto do mundo.
A Europa a que Portugal pertence é dominada pela implacável crueldade de um discurso político marcado pelo populismo e pelo sentimentalismo. De um lado o populismo da austeridade, dos valores da produtividade, da racionalidade económica e dos balanços primários. Do outro lado o sentimentalismo da solidariedade, dos direitos sociais, da preservação das regalias, da conservação da imobilidade e do emprego para a vida. Populistas e sentimentais não entendem que o pacto social do pós-guerra chegou ao fim. Os populistas julgam que pensam fora da norma, os sentimentais limitam-se a pensar as sombras da caverna de Platão.
A primeira década do século é uma década sem nome. Em Portugal é a década da distracção e da incompetência que trouxe o país a um centímetro da falência. Na Europa é a década da grande ilusão do fim da história e que arrastou o Continente para o declínio económico e para desilusão política. Chegou o tempo de pensar política e estrategicamente o futuro. Com mitos e mentiras é a decadência da Europa e a velha legião de desempregados e quem sabe se o regresso a Marx.
Em Portugal, Passos Coelho tenta construir uma caravela no interior de uma estreita redoma de vidro. Os portugueses que sustenham a respiração porque o melhor e o pior ainda está para acontecer.
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Carlos Marques de Almeida, Investigador em Teoria Política
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