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As orações deixaram de estar circunscritas às igrejas, mesquitas ou templos. Hoje em dia, os fiéis recorrem à Internet para expiar pecados, trocar ideias, mas também para fazer contra-informação.
Quando um padre católico cria um ‘site' na Internet e entra em força nas redes sociais tem de estar preparado para tudo. Para espalhar a mensagem de Deus, para receber comentários desagradáveis, mas também para expiar os pecados dos cibernautas. Júlio Grangeia, o primeiro padre em Portugal a criar um ‘site' na Internet (www.padrejulio.net) já teve dois casos complicados para resolver. "Um homem e uma mulher, ambos comprometidos, vieram ter comigo porque andavam nos ‘chats' de conversação e começaram a apaixonar-se por outras pessoas. Em casa, a relação deles estava pelas ruas da amargura e, quando vieram ter comigo, eu dei-lhes um safanão", recorda Júlio, padre das paróquias de Travassô, Ois da Ribeira e Espinhel, no concelho de Águeda.
O safanão foi moral, claro, e dado presencialmente. É que os dois "pecadores", depois de terem trocado alguns ‘emails' com o padre Júlio, decidiram ir ter com ele a Águeda. Afinal de contas, os pecados causados pelas novas tecnologias devem ser resolvidos por quem percebe do assunto. "O objectivo do meu ‘site' é provar que as pessoas da igreja não têm sete cabeças. Eu sou um padre oficial da Igreja Católica, mas quero que os portugueses se identifiquem comigo", explica. Para isso, o pároco registou-se em várias redes sociais: Facebook, Hi 5, Netlog e You Tube. Aqui, tanto pode publicar fotografias de países que visitou como difundir imagens de missas que deu.
O número de ‘sites' e blogues religiosos continua a aumentar. Basta fazer uma pesquisa no Google para encontrar milhares de registos referentes à religião Católica, Judaica, Muçulmana, Budista, Evangélica, Ortodoxa, Hindu ou Maná. De acordo com diversos estudos, cerca de 85 por cento da população mundial acredita em Deus, em deuses, ou num qualquer poder divino. E, por isso, estima-se que cerca de 800 milhões de utilizadores em todo o mundo já tenham usado a Internet para pesquisar informações sobre religião.
Júlio recebe uma média de 80 emails por dia. Especialista em novas tecnologias, ele não quis ficar apenas agarrado à Bíblia e a outros escritos religiosos. "Foi em 1997 que criei o meu ‘site'. Na altura, lembro-me de fazer algumas pesquisas e apareciam sempre referências ao Vaticano, mas uma coisa muito institucional", lembra. Desiludido, o pároco de Águeda pôs mãos à obra. Não era preciso viver em Lisboa, Porto ou Nova Iorque para transmitir uma imagem mais dinâmica da Igreja. Bastava ter um computador, um modem grande e barulhento para apanhar rede, e muita paciência. Porque em 1997 nem a intervenção divina conseguia que a Internet fosse mais rápida.
Sentado à secretária da paróquia de Travassô, o ‘site' começou a ganhar forma. "No tempo de Jesus Cristo dizia-se ‘ide por todo o mundo e anunciai a boa nova'. Agora, o encontro com os fiéis católicos e de outras religiões está à distância de um clique", explica o padre Júlio. Só que o encontro nem sempre é de união. Numa pesquisa por "igreja católica" encontram-se várias páginas com notícias ou comentários em blogues sobre os escândalos de pedofilia, que recentemente têm afectado a imagem da Igreja Católica. "Parece que nos metem a todos no mesmo saco. As novas tecnologias também têm o lado mau de ressuscitar as coisas do passado como se fossem de hoje. O que se pretende nesses casos é atacar a parte mais institucional da Igreja", explica Júlio Grangeia.
Mas se as páginas e os comentários na Internet podem, de facto, atacar a credibilidade de uma religião, o contrário também acontece. Isto é, uma religião também se pode aproveitar da rede para se defender. No caso da Católica, o Vaticano tem um ‘site' oficial (www.vatican.va), uma agência de notícias ‘online' (a Ecclesia), uma página dedicada aos jovens (www.pope2you.net) e um canal próprio no You Tube (www.youtube.com/vatican). Neste último, além de filmagens com eventos religiosos, podem ser vistas mensagens do Papa Bento XVI. Uma delas é sobre o escândalo de pedofilia, em que o Papa reconheceu que a Igreja não agiu correctamente no tratamento dos casos de pedofilia que envolveram membros do Clero. Aliás, ele próprio foi acusado de ter encoberto um padre norte-americano suspeito de molestar 200 crianças surdas.
Noutras mensagens do canal You Tube, Bento XVI explica a decisão da igreja em usar as novas tecnologias. "Uma ferramenta como esta ajuda-nos a construir uma grande família, que não conhece fronteiras. No entanto, peço aos jovens que usem este instrumento de uma forma sensata, porque a obsessão pelo mundo digital pode isolá-los da vida real", afirmou.
Produzido por jornalistas do centro televisivo do Vaticano, o conteúdo do canal é actualizado diariamente e não tem anúncios publicitários. O Arcebispo Claudio Celli, do Vaticano, também elogia o crescimento do número de fãs no Facebook: 3.836 até ao momento. "A Internet é o megafone da sociedade", acrescenta Júlio Grangeia.
As 95 teses de Lutero
O primeiro episódio conhecido da divulgação massiva de uma mensagem religiosa aconteceu no século XVI. Nessa época, o teólogo alemão Martinho Lutero revoltou-se contra a venda de indulgências aos fiéis católicos. A Bula das Indulgências foi um documento publicado em 1513 pelo Papa Leão X, que concedia o perdão dos pecados aos cristãos. Em contrapartida, tinham de dar esmolas para a construção da basílica de São Pedro. Lutero viu este tráfico de indulgências como um abuso que poderia confundir as pessoas e levá-las a confiar apenas nas indulgências, deixando de lado a confissão e o arrependimento verdadeiros.
Publicou, então, um documento (as 95 Teses) contra as indulgências em 1516 e 1517. As 95 Teses foram traduzidas para alemão, impressas e coladas na porta do castelo de Wittemberg, na Saxónia. Ao fim de duas semanas, o documento já se tinha espalhado por toda a Alemanha e, em dois meses, por toda a Europa. Este foi o primeiro episódio da História em que a imprensa teve papel fundamental, pois facilitou a distribuição e leitura do documento. Lutero acabaria por ser excomungado no dia 17 de Abril de 1521.
Judeus, Muçulmanos e Budistas
José Oulman Carp é o presidente da comunidade israelita em Portugal. Está registado no Facebook, tem um blogue e participa num fórum religioso (o Fórum Abraâmico de Portugal) juntamente com Abdool Vakil e Peter Stilwell. "A Internet é fundamental. O diálogo religioso tem estado centrado entre os intelectuais, os líderes políticos e menos no povo. Por isso, a rede dá a oportunidade de divulgar o diálogo religioso sem tabus e com uma linguagem simples para as pessoas perceberem", diz o presidente da comunidade israelita. No Fórum Abraâmico, Oulman Carp, Vakil e Stilwell procuram dar a conhecer as três religiões (judaica, islâmica e cristã) e, entre outras coisas, organizam encontros, seminários e conferências. "A nossa página é muito consultada e o ‘feedback' que recebemos é sempre muito positivo", conta Carp. O presidente da comunidade israelita anda sempre com um telemóvel ligado à Internet. Consulta as dezenas de emails que recebe diariamente, troca informações com os amigos do Facebook e visita ‘sites' de diferentes religiões.
No entanto, está sempre atento à contra-informação que circula pela rede. Ainda esta semana, Carp recebeu um email em que se transcrevia uma carta escrita por Lee Iacocca, ex-presidente da Ford e da Chrysler nos Estados Unidos. "Ele acusa o presidente Barack Obama de uma série de coisas, entre os quais o facto de ser anti-semita", afirma. Supostamente, a carta é datada de 2008 e foi tirada da campanha republicana para as eleições presidenciais. "Eu verifico sempre a veracidade da fonte que me enviou a informação e se for falsa já não a reencaminho. Mas a maior parte das pessoas não tem este cuidado", avisa Carp.
A comunidade muçulmana em Portugal tem um ‘site' (pt.islam.webnode.com) onde os fiéis se podem informar sobre o horário das orações ou colocar perguntas relacionadas com a religião. Há ainda diversos ‘links' para uma biblioteca islâmica, um dicionário ou informações sobre a vida do profeta Maomé. Do lado direito do ‘site' há um inquérito aos visitantes. "Qual a sua religião?". A esmagadora maioria dos visitantes é muçulmano. Católicos e ateus aparecem, respectivamente, em segundo e terceiro lugar.
Desde a vinda do Dalai Lama a Portugal, em 2007, que o número de praticantes budistas tem vindo a aumentar no País. Automaticamente, o número de cliques nos ‘sites' desta religião aumentou. Alexandra Coveira, professora de tibetano e membro da Fundação Kangyur Rimpoche (pertence à União Budista Portuguesa), usa a Internet para manter contacto com budistas de todo o mundo. "Cada vez menos se sente desconfiança em relação à Internet. Uso frequentemente o You Tube para ver as conferências de líderes budistas ou programas de meditação", explica.
Alexandra, que viveu na parte tibetana da índia durante vários anos, usa ainda a net para tirar dúvidas sobre palavras ou expressões deste idioma. "Contacto com outros professores e ajudamo-nos", diz.
O "Financial Times" publicou recentemente uma reportagem sobre a entrada dos Jesuítas no Second Life. "Por trás de um avatar há um homem ou uma mulher com necessidades religiosas muito fortes", explicou um padre jesuíta ao jornal.
A religião e o dinheiro
A parte económica é característica comum a alguns ‘sites' religiosos. Por exemplo, o ‘site' francês croire (www.croire.com), cobra 36 euros por ano para o cibernauta ter acesso a um manual de informação sobre a vida de Jesus Cristo. O preço dos vídeos pode variar entre os dois e os cinco euros.
Já o blogue do bispo Edir Macedo (blog.bispomacedo.com.br/cache), que recebe mensalmente mais de três milhões de visualizações, tem uma secção de perguntas e respostas feitas pelos utilizadores. Depois, o bispo responde a tirar todas as dúvidas, que podem ir do sexo à prostituição ou ao dízimo do empresário. Na parte superior do ‘site', existe um ‘link' que vai dar a uma página de vendas de bíblias, livros, CD e DVD.
No ‘site' Meu Santo (www.meusanto.com.br) os fiéis podem aceder a informações sobre a história dos santos católicos e, que quiser, pode comprar santinhos digitais (para depois imprimir as imagem e poder distribui-los) ou fazer o pagamento de promessas via Internet. É ainda possível assistir a novenas virtuais e há um ‘ranking' dos santos que mais têm satisfeito os pedidos dos cibernautas. A página conta com uma média diária de dez mil visitas.
Por fim, o canal de vídeo Catholic Tube (www.catholic-tube.com) cobra 125 euros por um anúncio publicitário de um mês. "Queremos fazer crescer esta página", escreveram os administradores do ‘site'. De facto, a Internet de banda larga é cara e os meios tecnológicos necessários para difundir a imagem de Deus também. Ou seja, sem dinheiro não há milagres.
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