Nada me move contra as agências de ‘rating’.
À semelhança de consultores e auditores, são normalmente compostas por jovens promissores com muito boa preparação académica, imbuídos de elevada capacidade analítica e formatados em exigentes metodologias de trabalho, dirigidos por excelentes profissionais com longos anos de actividade.
À semelhança dos consultores, são, muitas vezes criticados pelo excesso de teoria e falta de sentido do real, dado que são apenas responsáveis por aconselhar ou avaliar e não por decidir e fazer. E, à semelhança dos auditores, são às vezes criticados por um excesso de independência formal, regendo-se por normas internacionais quase cegas, por vezes não se adaptando à realidade e ao concreto.
Mas, enquanto consultores e auditores são parte da história das empresas que os contratam, preservando a sua independência e autonomia e contribuindo com as suas discretas orientações para o sucesso dos seus clientes, as agências de ‘rating' são contratadas, não para sugerir e apoiar clientes, mas sim para avaliar clientes perante terceiros.
Assim, se um consultor falha nas suas funções de aconselhamento é afectado por isso, perdendo normalmente o cliente. Se um auditor falha na sua função é afastado, ou mesmo banido. Porém, no caso das agências de ‘rating', bem pode o cliente ser prejudicado, bem podem as agências falhar, que o resultado não as afecta. Porque as agências que foram uma exigência de mercado, passaram, após a crise de 2008, a ser um instrumento da regulação. Deixaram de servir para a venda de risco, passaram a servir para regular a aceitação desse risco. Foram excessivos no passado, facilitando riscos (relembre-se o ‘subprime'), serão excessivos agora, exagerando riscos. É a consequência de um modelo que obriga o ‘outsourcing' da função risco.
Por isso, as agências têm vindo a ganhar a arrogância do indispensável. Podem anunciar publicamente, e com enorme naturalidade, que o Estado Soberano Português deveria pedir ajuda externa. E vai daí, como não lhe obedeceram, reduzem-lhe o ‘rating', colocando-o bem abaixo da Irlanda, à beira da classificação de alto risco. E porque as entidades europeias, seja um BCE ou um BEI, fazem fé regulatória no ‘rating' atribuído, a República Portuguesa e as suas instituições ficam mais limitadas no acesso ao financiamento. E para que não fiquem dúvidas, na maior parte dos casos são necessárias, não uma, mas duas opiniões de ‘rating' para a Europa avaliar Portugal.
Estranha Eurozona, onde a força da moeda é alemã, a fraqueza da dívida é de cada País, e a avaliação e regulação dessa dívida é das agências de ‘rating' americanas. Estranho Modelo Europeu.
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António Ramalho, Gestor
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