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Luís Rego

Eurogrupo não dá nada a ninguém

04/07/12 00:20 | Luís Rego 



A Irlanda conseguiu passar pelos intervalos da chuva e sair como o único país que pode cantar vitória depois da última cimeira de líderes.

Numa concessão que deve ter feito corar o primeiro-ministro português, Dublim recebe uma garantia expressa de que o seu programa vai ser melhorado para aumentar a sustentabilidade da dívida. A taxa de juro a 9 anos caiu para baixo da italiana nos mercados de dívida secundária, com a perspectiva de o país se ver livre de parte da dívida que assumiu dos bancos. Depois de muita pressão negocial, os irlandeses têm aqui uma via verde para voltar aos mercados em 2013.

E Portugal, senhor primeiro-ministro? Portugal continua silenciosamente à espera da sua vez. O país vai receber uma visita decisiva da Troika em Agosto em que na agenda está o regresso aos mercados em 2013. Os juros soberanos têm vindo a cair mas continuam titubeantes e a derrapagem orçamental será o elefante na sala. Será que o FMI aceitará dar mais um ano de créditos, quando o país ainda não dá garantias de solvência? Com a Irlanda a colar-se à imagem espanhola de país saudável com problemas de banca, Portugal volta para o campeonato da Grécia: países com problemas crónicos de crescimento e de orçamento. O Eurogrupo quer fazer de Portugal um exemplo. Mas o reflexo condicionado de Passos Coelho, de sacrificar procura interna no altar de Bruxelas, empurra o país para o exemplo da Grécia, onde o reforço de austeridade em 2011 acabou por tornar inevitável o segundo resgate. O governo já provou que sabe cumprir o programa, agora tem de provar que isso serve para alguma coisa. Em vez de pieguices sobre a "exigência do ajustamento", o país tem de bater-se por igualdade de tratamento.

Além da Irlanda, o desfecho da luta de egos entre os grandes países na última cimeira devia servir de exemplo. Se é verdade que reler os resultados da cimeira é como descobrir uma Matrioshka, também é verdade que, pela primeira vez, uma aliança de países vítimas da crise conseguiu colocar os países ricos na defensiva.

É verdade que a chanceler alemã, Ângela Merkel conseguiu voltar para Berlim sem abrir a carteira, que tem recheado com a fuga de capitais do sul e com as benesses de um euro fraco. É verdade que, no curto prazo, o euro continua nas mãos do BCE e no apetite deste comprar mais dívida, como fez no Verão passado. Mas desta vez Berlim foi obrigada a fazer mais do que queria. Poderá chegar tarde demais mas Madrid ver-se-á um dia livre da dívida dos bancos, algo que tinha sido afastado por Berlim. Ainda não se sabe quando, nem quanto o fundo de resgate vai comprar dívida italiana (ou outra) no mercado, mas o Eurogrupo será forçado a definir estas modalidades, contra a vontade dos países ricos.

Ainda que ténues e sinuosos, estes avanços não são fruto da generosidade do Eurogrupo mas sim de uma dura negociação. Por sua iniciativa, Berlim não queria conceder um milímetro que fosse aos tesouros espanhol e italiano. A sorte, por muito curta que seja, só premeia os audazes. Por isso chegou a hora de Passos Coelho mostrar na mesa de negociações que tem a mesma capacidade de iniciativa e empreededorismo que pede aos portugueses.

 




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