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Afinal, o Dr. Passos Coelho, antes de desencadear a crise política que deitou abaixo o Governo e provocou eleições intercalares, foi informado pessoalmente pelo primeiro-ministro sobre o PEC IV, e até discutiu o documento com o seu interlocutor, durante um encontro formal em S. Bento.
A questão não é de somenos importância, pois marca a distância que vai de uma verdade a uma inverdade que andou a ser vendida aos portugueses para justificar uma reviravolta tão decisiva na orientação estratégica do maior partido da oposição.
E é assim que a política portuguesa se processa através de uma sucessão de episódios que têm um denominador comum: o absoluto desprezo pela ética numa actividade tão elevada como é a ciência e a arte de governar um Estado e uma nação. Aparentemente, vale tudo. A mentira e a omissão, o transformismo e o travestismo, passaram a subsidiárias da grande arte de iludir, convencer, arrebanhar e, enfim, governar o pagode.
A inverdade na política torna-se corriqueira na modalidade que consiste em não cumprir o prometido, ou seja, mentir. Quase todos os candidatos prometem - até agora, neste preciso momento, com o FMI a governar o País - prestar atenção aos mais pobres e desfavorecidos e, como está á vista, não cumprem. E, uma vez banalizada, a mentira não mais tem fim. Na política engana-se, diz-se o que não se pensa. Ou, muito e simplesmente, falta-se à verdade. O nariz da generalidade dos políticos só não se vê crescer como o do Dr. Pinóquio porque a maquilhagem da propaganda e a trucagem dos audiovisuais disfarçam as deformações e alimentam todas as ilusões.
Claro que uma vez por outra algum político menos cuidadoso deixa-se apanhar. Não há problema. Há uma receita infalível para disfarçar uma inverdade: uma mentira maior.
joaopaulo.guerra@economico.pt
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