Há vários meses que na faculdade onde dou aulas está pintado numa parede uma inscrição que pergunta, “estes economistas, para quê?”.
Quando li o manifesto dos 28 foi essa a questão que me veio à cabeça. Na verdade, há um manifesto que eu, enquanto não-economista, esperava ver escrito. Um manifesto que reflectisse sobre o falhanço do mesmo saber técnico que agora é invocado para intervir politicamente na previsão do que aconteceu à economia mundial ou sobre a incapacidade de construir respostas políticas que prevenissem o descalabro. Por exemplo, não seria de esperar que se assistisse a um questionamento crítico do Pacto de Estabilidade que tantos entraves criou ao crescimento económico no espaço europeu?
Perante tantos motivos para mobilizar o espírito crítico, o grupo dos 28 propõe que, perante uma crise com uma extensão com poucos termos de comparação, o país pare para fazer uma reavaliação e que suspenda os investimentos públicos em grandes obras. Ora face à crise que vivemos, parar é um luxo que não nos é de facto permitido, como aliás revelam várias instâncias internacionais. Por todas, vale a pena recordar a opinião recente de um conjunto de peritos do FMI sobre a política orçamental adequada para responder à crise. Em primeiro lugar, os Governos devem assegurar que não há cortes nos programas já existentes por falta de recursos; em segundo lugar, os programas que haviam sido adiados ou interrompidos por falta de recursos ou por considerações macroeconómicas, devem recomeçar rapidamente; finalmente, tendo em conta que o recurso ao crédito por parte dos privados se tornou bem mais exigente, o Estado deve aumentar a sua participação nas parcerias público-privadas, de modo a assegurar que os projectos se realizam. O que, por sua vez, gerará emprego (uma urgência social e económica) e oportunidades de investimento privado. Ou seja, tudo exactamente ao contrário do que nos é proposto pelos 28. Uma segunda preocupação do manifesto remete para o risco de, com os investimentos programados - que aliás já foram revistos em baixa sucessivamente -, estarmos a estrangular o futuro da nossa economia. Como lembrava no seu ‘blog' Pedro Lains, esta perspectiva assenta num duplo equívoco. Por um lado, com a integração económica, Portugal não existe autonomamente, mas apenas como uma região pobre da Europa. Por outro, as regiões pobres das zonas ricas devem ser mal-comportadas financeiramente, como revelam vários exemplos de ‘catch-up' com sucesso. É por isso que, perante a crise, e tendo em conta o nosso carácter pobre e periférico, o que precisamos é de economistas que olhem para o futuro, não ficando presos às vias tradicionais que manifestamente falharam. Se essa reflexão vier de quem participou de modo mais ou menos activo nos falhanços dos últimos 35 anos, tanto melhor.
Comentários (10)
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13 de Maio de 1853 – Contrato para a construção de linha até à fronteira
É assinado o contrato entre o Governo e Hardy Hislop, Director e representante da Companhia Central Peninsular dos Caminhos de Ferro em Portugal, para a construção de uma linha férrea de Lisboa à fronteira de Espanha, passando por Santarém, na bitola de 1,44 m. Será que a nossa situação económica era assim tão boa? Será que hoje estamos assim por causa desse investimento ? Gostaria que todos pensassem um pouco .....
Muitos economistas há vários anos alertavam para o risco do descalabro de uma economia baseada unicamente no crescimento da dívida. Mas até ao início da crise ninguém quis acreditar nestas previsões. Agora comete-se o mesmo erro e vai de aumentar ainda mais o nível de endividamento do país com obras faraónicas. O resultado não deverá demorar muito a chegar. Depois toda a gente vai dizer que não estava à espera...
MEUS senhores isto não tem nada haver com economistas ,gestores engenheiros medicoS arquitectos etc. Esta crise tem haver com muita formação académica muito QI e nenhuns valores e baixissimo O QUE QUER DIZER FALTA DE VALORES E BOM SENSO. Ou seja não precisamos de pós garduados em tudo e mais alguma coisa , precisamos é de outros valores e muito menos GANÂNCIA.
Ou acham que um BERLUSCONI é exemplo para alguém ... ou acham que a nossa fátima e o valentim também são.
E onde estão estes ? no poder não é ? haja economista que perceba a lógica desta gente .
Amigo Estarola vá dar uma volta, apanhe ar fresco hoje até tá fresquinho que isso passa e deixe-se de cash-in-flows e cash-out-flows! isso de criar riqueza pras gerações futuras não tem ponta por onde se pege temos que criar é bem estar prás presentes e as que vierem a seguir se não as tiverem (mas vão ter),cria-las pra saberem o que é vida e não terem tudo de mão beijada sem o minimo esforço é assim que se formam gerações responsáveis e venha o TGV que é um meio de transporte para as gerações presentes e também para as futuras mas principalmente para as presentes. Lembre-se que a gente só consegue viver o presente o futuro é uma incognita e eu quero ir de TGV até madrid ou até ao porto o mais rápido possivel!
Este artigo é sobre ideologia, defendendo todos os que seguem acriticamente um modelo puramente intervencionista na economia. Uma espécie de keynesianismo distorcido. Keynes sabia certamente sobre o que escrevia. Textos destes abundam hoje, sobretudo em Portugal, Afinal, nada ou muito pouco sobre economia, ou mesmo sobre sociologia. Apenas um certo tipo e estilo de política, embora claramente maioritário em Portugal. Com o voto da maioria dos portugueses (no PS. no Bloco e no PC), e desde há muito. Nada de novo no quintal.
Oh ilustre Estarola ! Foi um sociólogo, FHCardoso, que meteu o Brasil nos carris das "finanças". Por vezes, os economistas ficam "cegos" só de olhar para os números. Ver, olhar e observar são coisas distinta ! Até o actual PR não "sabe" onde param as suas poupanças entregues ao BPN (privado).
Concordo inteiramente com o artigo. Ha muita demagogia no timing e no conteúdo do manifesto destes “credíveis” economistas. Em período de pré-campanha eleitoral acena-se aos portugueses, com a intenção do governo em gastar milhões, quando há tanta pobreza e tanto desemprego. Estão a ver o impacto, não estão? Mas a demagogia deve combater-se com factos e, valha a verdade, ainda não vi ninguém do lado do governo contestar a tal lenga-lenga do endividamento externo e do futuro dos nossos filhos. É ou não verdade que as barragens serão construídas por privados (em especial por uma eléctrica espanhola)? No futuro os nossos filhos vão pagar a energia a esses privados. Mas qual é o problema? Se não a pagarem a esses privados vão pagá-la aos exportadores de petróleo. É verdade ou não que dos custos do TGV só cerca de 1/3 é suportado pelo Estado e será pago ao longo de vários anos? É verdade ou não que uma boa fatia do TGV é paga por Bruxelas? Querem desperdiçar estes apoios? Somos o país mais petróleo-dependente da zona euro. O petróleo, como se sabe é gasto sobretudo nos transportes. Não acham que se deve apostar seriamente na ferrovia (passageiros e mercadorias) que consuma energia em vez de petróleo?
Um sociólogo dito especialista no mercado de trabalho deveria saber que bom investimento é aquele que é reprodutivo, ou seja, aquele que gera cash-in-flows que permitem, para além do retorno do investimento, gerar riqueza para as gerações futuras. Os investimentos que apenas geram cash-out-flows, embora temporariamente possam gerar emprego, contribuem para endividar quem os faz e ameaçar o futuro, uma vez que não só não são recuperados, como para além disso continuam a consumir recursos durante várias gerações. Como disse Apeles, famoso pintor grego, que não suba o sapateiro (sociólogo) acima da sua chinela (estudo do óbvio).
Uma Economista num conjunto de 28 revela pouca atenção e sensibilidade social nos tempos actuais. Mas vindo donde vem...não espanta ! Mas não nos admiremos de daqui por 3 meses defenderem, rigorosamente o oposto ! Mas já com...gravata !
Este grupo,sejam eles 28 ou 2,8 e bem representativo daqueles outros "experts" que estao entre os maiores responsaveis, a nivel mundial, do maior desastre economico/financeiro conhecido.Se desastre semelhante tivesse acontecido em outros ramos do "conhecimento", certamente nao so as bases desse "conhecimento" teriam sido postas em causa como muitos deles teriam muita coisa a justificar.
Como se isso nao fosse o suficiente para recomendar muita cautela a esses ditos "xperts" no que diz respeito a afoitarem-se a fazer prognosticos economico financeiros publicos e, mais ainda a titulo individual,vemos no Pais, este grupo de "gurus" (serao?) a botar opiniao acerca daquilo que o Governo deve ou nao fazer na area de investimentos ou do desenvolvimento do Pais.Como se muitos deles nao tivessem. de uma forma ou de outra,sido responsaveis ,pelo menos e se mais nao fosse, atravez das opinioes que anteriormente emitiram ,quando nao mesmo pela sua accao directa enquanto membros de governos anteriores,por muitas das dificuldades actuais.
Entao se o resultado do conhecimento de muitos destes economistas deu no que deu,que garantia temos nos de que as vossas opinioes,agora ,desta avez,sao melhores?
E o que os leva agora,esquecendo as licoes dos desastres anteriores, a virem questionar e a atacar aquilo que foram decisoes deste Governo?Mais, decisoes essas , que tinham sido iniciadas, apoiadas e fomentadas anteriormente por alguns deles!
Interesse publico? Altruismo ou....oportunismo politico e sectario?