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Luciano Amaral

Estado de mal-estar

07/07/11 00:03 | Luciano Amaral 



Muita gente se espanta pela violência social que vai vendo na Grécia. Porque se revoltam os gregos contra programas que ostensivamente procuram consertar o país?

Não percebem eles que, revoltando-se, tornam tudo ainda mais difícil? Provavelmente percebem, mas sobretudo percebem que os programas de austeridade e "reformas estruturais" são o fim da civilização que foram construindo nas últimas décadas, a civilização do Estado de Bem-Estar (Welfare State), a que chegaram atrasados. Como, de resto, chegaram os portugueses, que se preparam agora para tomar também do mesmo xarope.

Ignora-se se os portugueses vão chegar aos extremos de violência dos parceiros gregos. Talvez o envelhecimento da população portuguesa, por oposição à maior juventude da grega, ajude a que não aconteça. Mas ninguém se espante se um dia as coisas mudarem.

No caso de Portugal, o Estado de Bem-Estar construiu-se soprado por três efeitos, que por vezes concorreram simultaneamente, por vezes alternadamente, no último caso insuflando um pouco mais as velas quando o efeito anterior deixou de se fazer sentir. O primeiro foi o ‘crawling peg', o sistema de desvalorização mensal utilizado pelo país entre 1977 e 1990, que embaratecia as nossas exportações e dificultava as importações, permitindo evitar que nos confrontássemos com a nossa baixa produtividade. O segundo foi o bónus do crescimento mundial (e europeu) da segunda metade dos anos 80, co-adjuvado por uma insólita vaga de investimento estrangeiro e pelos famosos "fundos estruturais" da CEE.

O terceiro seguiu-se a este e consistiu nas receitas das privatizações, acompanhadas da queda das taxas de juro resultante da política monetária para a entrada no euro; ambas as coisas permitiram uma estranha combinação: explosão da despesa pública, redução da dívida pública e reequilíbrio orçamental; como é evidente, isto só pôde existir muito transitoriamente.

Agora, haveria apenas uma maneira rápida de continuar na mesma rota: sair do euro e regressar à manipulação cambial para voltar a soprar as velas. Na incapacidade de o fazer, sobra o desmantelamento desta civilização, que é o que nos propõe a dita ‘troika' e o novo Governo: reduzir funcionários públicos, os programas de Saúde e de Segurança Social. Não é uma questão de ideologia. É uma questão de dinheiro. O PSD é tão responsável pela construção do Estado de Bem-Estar quanto o PS. O PS andou o último ano e meio a inaugurar estas hostilidades.

Mas se, no início, o grande problema é o dinheiro, no final não é: se vamos desmantelar esta civilização, qual será a que podemos oferecer em alternativa? Se a democracia de Bem-Estar não pode sobreviver, o que pode existir no seu lugar?

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Luciano Amaral, Professor universitário

 




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