Li de um fôlego a parte portuguesa do Relatório de Outono da Comissão Europeia.
O retrato é demolidor: baixa produtividade, erosão competitiva, estagnação económica, rigidez laboral. Nada que internamente já não soubéssemos. Mas há aqui um elemento novo: a crise vai prolongar-se por 2011. Todos imaginávamos uma recessão em U; a curva abriu-se e transformou-se em L - o fundo do poço por período indeterminado. Que mais nos irá acontecer?
A mensagem é clara. Num cenário de inalteração das políticas, o défice orçamental no triénio 2009-11 será sempre superior a 8% do PIB, elevando a dívida pública para 91% do PIB em 2011. Mas este é um cenário inverosímil, porque Bruxelas já avisou que temos de fazer correcções a partir de 2010. Com as despesas tão rígidas, só consigo visualizar dois caminhos: ou aumentamos os impostos ou diminuímos os investimentos. Estamos atados de pés e mãos.
Em termos de emprego, o estudo aponta para quedas de 2,3% em 2009 e 0,4% em 2010, o que levaria a uma perda de 140 mil empregos. Penso que o número está subavaliado. Entre o segundo trimestre de 2008 e o segundo trimestre de 2009 já contabilizáramos 152 mil e o processo não terminara. É possível que a taxa de desemprego não venha a exceder 9%, mas por outras razões: a população activa vai baixar, devido ao regresso de imigrantes aos países de origem.
Também os níveis salariais são preocupantes, ao sugerirem uma subida de 4,7% em 2009. É provável que o número seja mais baixo. De qualquer modo, se a este acréscimo nominal juntarmos a queda dos preços, que em Outubro último já ia em 1,5%, a variação real deverá exceder os 6% - um número inimaginável e de que não tenho memória nas últimas décadas. Com esta variação, o peso dos salários no PIB passará para 53% em 2010, o mais alto da zona euro.
Olho para estes números e fico arrepiado com a desfaçatez de algumas propostas que vão aparecendo por aí. Uns defendem a baixa de impostos. Outros querem aumentar os subsídios. E há ainda quem sugira que se dê mais um jeitinho às pensões. Não me surpreenderia se, daqui a uns meses, quando começarem as greves, todos se unissem aos sindicatos em nome de uma luta comum: o aumento dos salários.
Está tudo doido.
d.amaral@netcabo.pt
____
Daniel Amaral, Economista
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E sobre as três ou quatro linhas de TGV que nos vão atar definitivamente à soberania castelhana, nem uma palavrinha? E sobre a terceira mega-ponte sobre o Tejo em Lisboa, nada? E sobre o aeroporto faraónico que aí vem, moita carrasco? E sobre o dinheiro esbanjado a salvar os banqueiros corruptos que (por coincidência) declararam o seu amor eterno a Sócrates imediatamente antes das eleições, nadita?
Proposta:
- Redução dos salários dos Juizes e Procuradores;
- Redução dos salários dos professores universitários;
- Redução dos salários dos economistas do banco de Portugal;
- Redução dos salários dos quadros superiores (>2000€) das empresas públicas falidas.
- Aumento do IRC da banca;
- Dinamizar a intervenção da CGD no mercado bancário (saída do cartel e dinamização da concorência)
O Amigo Daniel Amaral está inserido em que público?
Apesar de nao ser economista creio que se está a cometer um erro muito grave em estabelecer uma relaçao de causalidade entre o aumento do salário minimo e reforço de apoios sociais e a queda da produtividade. Creio que se deveria fazer uma análise paralela em termos da evoluçao da desigualdades na sociedade portuguesa para verificar a hipótese de a diminuiçao da produtividade nao estar relacionada com o aumento do salário minimo mas com o aumento do salário dos cargos de topo. Tendo em conta que Portugal é um dos paises onde as desigualdades sao maiores nesse parametro...
Eu não dava tanta importancia às previsões da UE. As previsões (todas elas) tem vindo a falhar sistemáticamente. Alguém previa que Portugal fosse dos primeiros paises da zona euro a sair da crise? Como podemos prever com rigor o que vai acontecer em 2011 se ainda ha tantas variaveis por definir? Mas indo ao essencial. 1- Concordo que o governo tem que voltar a controlar a despesa pública e que deve opor-se a aumentos salariais e baixas de impostos irrealistas. 2- Mas os investimentos públicos nas barragens, aeroporto e alta velocidade, porque têm pouco impacto nas contas públicas (no fundo são investimentos privados) não devem ser abandonados. A saída da nossa situação não está em poupar uns escassos tostões. Está em apostar corajosamente na expansão. E os investimentos que estão em discussão (barragens, aero e TGV) são investimentos mais que necessarios, ha muito planeados e (curioso) ja aprovados por todos os partidos no passado.
Pois é. está tudo mesmo doido!
Sr. economista, «Nem tanto mar, nem tanta terra!...»
Naturalmente não poderei responder com o rigor dos números, mas a percepção que tenho, relativa à imigração, é que não devemos subestimar o dinamismo e a capacidade de adaptação do imigrante. Aliás, o imigrante é parte da solução - não do problema (demográfico, segurança social, emprego).
1. flexibilidade laboral: ontem, p ex, um bom amigo brasileiro contava-me, com satisfação, que o patrão (comércio) agendou trabalho p/ os próximos feriados, e, mais algumas horas extra. Horas, ganchos e biscates - existe grande proactividade do imigrante na procura e no "agarrar" das ofertas disponíveis.
2. crise e barreiras - algum tempo atrás, nas redes sociais (Orkut) difundiu-se a ideia de que as barreiras/restrições impostas nos EUA (e nalguns países UE) estavam a deslocar os fluxos migratórios tradicionais, tendo Portugal (c/ políticas de imigração mais flexiveis) entrado na rota, simultaneamente como origem (dupla-emigração) e destino.
3. Família - denota-se uma variação qualitativa numa fase pós-integração, com muitos imigrantes a procurarem constituir/reunir família e refazer laços de solidariedade e de parentesco cá. Considere-se tb o impacto positivo da imigração na natalidade - e crescimento natural.
4. O poder da Fé - muitos imigrantes encontram nas Igrejas (em particular evangélicas brasileiras) o apoio, a confiança e a solidariedade social de que carecem;
5. Comunidades dinâmicas - do comércio aos serviços, há muitos imigrantes que arriscam estabelecer-se por conta própria, verificando-se um forte dinamismo empreendedor nestas comunidades.
E o MICROCRÉDIO, ainda pouco divulgado, é um poderoso instrumento de apoio financeiro de apoio a pequenas/médas iniciativas empresariais.
Aliás, tomando como exemplo, se querem por a economia a crescer, então apoiemos mais as famílias - e invista-se em sectores como a agricultura, silvicultura, pescas, o turismo, urbanismo/requalificação urbana, ambiente, etc. que se dirijam e apoiem pequenas - e grandes - iniciativas empresariais!
Oh Sr "economista"! Gostava de o ouvir falar em plafonar os ordenados máximos, as regalias máximas, etc. etc. e concordo e subscrevo pelnamente o post de Miura. Comecem por ser coerentes: ACABEM COM OS ORDENADOS E REGALIAS IMORAIS DE GESTORES/ADMINISTRADORES/VOGAIS (Sim o que faz esta chusma de parasitas??), normnalmente de empresas e grupos falidos.