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Fernando Gabriel

Especulação e interesse

15/07/09 00:01 | Fernando Gabriel 



Por que razão o preço do petróleo apresentou uma enorme volatilidade ao longo do último ano? Gordon Brown e Nicholas Sarkozy não têm dúvidas: a culpa é dos especuladores.

Num artigo de opinião assinado conjuntamente garantem que a volatilidade do preço do petróleo desafia "as regras aceites da Economia". Para resolver esta contrariedade propõem um maior controlo político dos preços e dos mercados futuros, limitando os montantes de investimento.

Os economistas não partilham as "certezas" de Sarkozy e Brown: em "Three Epochs of Oil" Eyal Dvir e Kenneth Rogoff analisam uma série longa de preços do petróleo, de 1861 a 2008, e distinguem dois períodos, 1861-1878 e 1972-2008, onde o preço médio se manteve elevado de forma persistente e simultaneamente apresentou uma enorme volatilidade. Estes períodos apresentam semelhanças históricas: um forte crescimento económico que aumentou a procura de forma sustentada e uma incerteza acrescida quanto à capacidade de resposta da oferta, provocada pela existência de elementos chave nos mercados com a capacidade de restringir o acesso dos consumidores. Até 1878, esse elemento era o monopólio de transporte ferroviário nos EUA; depois de 1972 foi o cartel da OPEP. Dvir e Rogoff mostram ainda que quando aumenta a incerteza e a tendência do preço passa de determinística a estocástica, a acumulação de reservas contribui para a volatilidade do preço.

Estes resultados fornecem uma explicação para a subida do preço do petróleo em simultâneo com o aumento da volatilidade: a OPEP foi bem sucedida na redução da oferta e, ao reduzir o investimento, aumentou a incerteza estratégica. Além disso, ao longo dos últimos meses diversos países, designadamente a China, aumentaram as suas reservas. Se a evolução dos preços e das posições dos fundos de investimento exibem uma correlação positiva, isso não significa que os "especuladores" sejam os causadores do movimento: significa apenas que são economicamente racionais. A pressão política para a limitação das acções deste tipo de investidores compreende-se melhor reparando nos lucros substanciais que companhias comerciais como a BP ou a Shell obtêm neste tipo de transacções. Ao designarem os investidores não comerciais como "especuladores", estas companhias aumentam a pressão política para a limitação das respectivas posições, reduzindo a concorrência num mercado extremamente lucrativo.

O ódio ao "especulador" tem raízes históricas profundas, no preconceito medieval contra a usura e na crítica marxista ao capital e ao lucro. O fundamento da suspeição é a suposta imoralidade do "dinheiro que gera dinheiro" e as transacções nos mercados futuros, onde a informação é vital, tornam a sugestão de parasitismo mais persuasiva. A relação entre mercados e moralidade é bastante mais complexa do que as analogias marxistas sugerem e os efeitos da especulação podem ser difíceis de avaliar, mas um oportunista é relativamente fácil de identificar.
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Fernando Gabriel, Investigador universitário


Comentários

vg, | 15/07/09 00:36
Decepciona-me,eu que costumo gostar dos seus artigos.Naturalmente que a procura ,em parte devida aos Jogos Olimpicos de Pequim,forçou os preços ,mas a volatiilidade foi devida a aplicações financeiras.No petróleo e noutras ".commodities".Foi sobejamente comentado.Ou sera´que o aumento de consumo justificaria aumentos de 80 ou mais porcento?


Realista, Porto | 15/07/09 09:11
Há coisas onde os (meus amigos) neoliberais enxergam muito pouco e há outras onde são mesmo ceguinhos. Está neste caso a questão do preço do petróleo. Como podiam o crescimento económico chinês e indiano elevar o preço do petróleo de 40 para 150 dólares e depois fazê-lo baixar para 40 novamente? Não interessa perder muito tempo a discutir esta questão. Interessa sim discutir o controle e regulamentação do sistema financeiro mundial. Foi prometido pelo G20 mas ainda nada foi feito. Há fundos monstruosos (é o termo), sobretudo de chineses e produtores de petróleo, que andam por aí a especular e a dar cabo de tudo. Mantenham o capitalismo e a liberdade mas há um mínimo de regras que têm que rever. Para que serve o short.selling? Os off-shores? Mesmo os hedge-funds suscitam muita dúvida. Etc, Etc.


NapoLeão, | 15/07/09 10:54
O nosso "saudoso" W. Bush e os seus amigos, terão invadido o Iraque para instalar a democracia ou porque "cheirava" a petróleo ? E aquela filantrópica "preocupação" de armazenar o ouro negro em águas internacionais à espera do telefonema ? E os "pobres" dos especuladores não mereciam tratamento compreensivo ? E porque é que os CEO's das petrolíferas ganham paletes de notas, mesmo longe dos calores do deserto ? E quem sustenta as centenas de príncipes árabes e os seus numerosos haréns ?


inconformado, Torres Novas | 15/07/09 11:15
Não posso deixar de concordar que a especulação é o instrumento dos ganaciosos. Ora vejamos umas das noticias de hoje, em relação a matéria prima do pão que baixou cerca de 50% e os senhores que á um tempo disseram que o preço do pão teria de aumentar, pois o trigo sofreu um aumento brutal, veem agora dizer que n podem baixar, tendo a mesma matéria prima ter sofrido um decrescimo de 50%, pois tem outros custos. E Então os produtores da dita matéria prima que se aguentem, ou então nos próximos anos produzam menos, que é para estes senhores fazerem nova especulação e aumentar de novo o pão. ISTO É UMA VERGONHA NESTE PAÍS POIS FAZEM O QUE QUE QUEREM, POIS SABEM QUE NÃO VÃO SER CONTROLADOS.....


LOPES CARLOS, Belgica | 15/07/09 14:57
1. A RP CHINA gastou em 2008 cerca de 32 mil milhões de US Dol em projectos energéticos e mineiros ( Venezuela, Australia, Russia, Canadá,Brasil, Angola, Sudão) sem esquecer anteriores investimentos maciços noutros Estados (vg, Irão).
2. Os EUA perceberam muito bem esta actividade chinesa e os EUA temem um desiquilibrio global mesmo antes das datas "previstas". A Senhora Clinton disse claramente à Liderança Chinesa em Pequim, em Fevereiro de 2009, que
" ou sobrevivemos juntos ( EUA e RP CHINA) ou afundamo-nos juntos".
3. É por isso, Estimado Senhor Realista ,que a RP CHINA influencia muito o mercado do petroleo.


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