Parece que o Presidente da República sempre tinha razão quando dissolveu o parlamento, provocando eleições antecipadas.
Recorde-se que aqui há meses (semanas, mesmo) era moda criticar o Presidente por "não ter procurado consensos no anterior quadro parlamentar". Até domingo, graças ao agora célebre "empate técnico" das sondagens, andámos todos na expectativa de um resultado que não clarificasse, demonstrando a inutilidade das eleições. Afinal, mantém-se a regra implícita de que, quando dissolve, o Presidente interpreta bem a vontade de mudança do seu soberano, o povo português. Ainda não foi desta que se descredibilizou o método do golpe de Estado constitucional que o nosso semi-presidencialismo consagra e constitui um instrumento de regularização do sistema político. Este (o do falhanço do Presidente) foi um dos espectros que andou a pairar por aí até às eleições.
Outro foi, precisamente, o do "empate técnico" (e mais algumas predições). Os erros das sondagens cansam, e cansaram desta vez ainda mais por causa do fartote (de sondagens e de erros): os mais graves foram o "empate técnico", a "ligeira" vitória do PSD (para o fim da campanha), o PS a "aguentar-se", mesmo perdendo, e o CDS a chegar quase aos 15% (uma chegou a dar-lhe 18%!). Foi exactamente o contrário que aconteceu: o PSD teve uma vitória histórica (apenas superada pelas maiorias absolutas de Cavaco e pelos 40% de 2002), o PS uma derrota histórica (apenas superada pela de 1987) e o CDS manteve-se por onde vem andando, com uma ligeira subida.
Tudo isto alimentou um outro espectro, que planou pelo país antes e durante a campanha, o da necessidade do Bloco Central (talvez até alargado para incluir o CDS). O resultado das eleições não o podia ter afastado com mais clareza. Os dois partidos da direita nunca tiveram um resultado tão bom, se exceptuarmos os tempos de Cavaco. E têm agora uma legitimidade que deveria dispensar a suposta necessidade de "entendimentos" com o PS. Que o PS não vai facilitar e se vai transformar numa espécie de Partido Comunista na oposição, já se espera. Mas isso não deveria tolher os novos detentores do mandato popular.
Onde chegamos ao último espectro: viu-se pelo discurso de vitória que o PSD espera ser o administrador dos remédios da 'troika'. Talvez me engane, mas o novo Governo é capaz de vir a ter de ser o administrador da reestruturação ordeira da dívida externa portuguesa e, nesse caso, talvez mesmo da saída ordeira do euro. Ainda que consiga evitar essa sorte, valeria a pena convidá-lo a elaborar um plano de contingência, pois o dia poderá chegar em que tenha de o fazer. E esse dia terá de o apanhar (e a nós) muito bem preparado(s).
Luciano Amaral
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