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Análise

Espanha sob escrutínio dos mercado

Carmen Mendes Camacho  
04/06/12 14:22


As notícias da última semana focaram-se em Espanha e nos receios em torno da possibilidade do país ter de recorrer a um pacote de ajuda financeira.

A probabilidade que os investidores atribuem a este cenário aumentou, depois do ressurgimento dos problemas financeiros da banca espanhola, o que aliado a novos downgrades de rating das regiões por parte da agência Fitch, deteriorou as perspectivas sobre a capacidade do país em fortalecer o seu sistema bancário e fazer face a compromissos orçamentais definidos. A especulação dos investidores sobre a resposta da zona euro à crise onde actualmente se encontra tem vindo progressivamente a intensificar-se, acentuando a necessidade de novos esforços de conciliação de interesses entre os governos da região para restaurar a confiança do mercado.

A última semana foi marcada pela subida do prémio de risco da dívida pública espanhola, que se encontra em máximos históricos, próximo dos 550 pontos base face ao Bund alemão, no caso dos títulos a dez anos. Este movimento reflectiu notícias sobre um novo pedido de ajuda financeira por parte do Bankia ao Estado espanhol e receios que outras instituições o possam fazer também, aumentando a probabilidade de Espanha ter que recorrer a apoio financeiro internacional. Por outro lado, a abalar a confiança dos investidores em relação a compromissos orçamentais definidos esteve a revisão em baixa, pela Fitch, dos ratings de oito regiões autónomas. Andaluzia, Astúrias, País Basco, Canárias, Cantabria, Catalunha, Madrid e Múrcia foram as regiões afectadas, podendo ainda assistir a novos downgrades, pois o seu outlook continua negativo.

Quanto ao sistema financeiro espanhol, o plano de recapitalização anunciado pelo Bankia prevê uma ajuda estatal de 19 mil milhões de euros. Isto, em conjunto com o empréstimo concedido em 2011 pelo Fundo de Reestruturação Ordenada da Banca ao Banco Financiero y de Ahorros (BFA), detentor do Bankia, eleva para 23.5 mil milhões de euros a assistência financeira do Estado a esta instituição financeira. O valor da ajuda supera largamente o total do montante dedicado pelo governo espanhol ao auxílio do sector financeiro. Neste contexto, foi divulgada a possibilidade de a ajuda estatal efectuar-se através da troca de títulos da dívida pública por acções do banco, para posterior utilização como colateral nos empréstimos concedidos pelo BCE, a qual parece não ter sido bem aceite por esta instituição. Posteriormente, o banco central negou qualquer consulta por parte de Espanha sobre este tema e o governo espanhol veio admitir uma possível emissão de divida pública para o efeito.

Esta discussão em torno do modo como se irá processar o auxílio ao Bankia acrescentou mais volatilidade aos mercados, tendo os efeitos sido sentidos não só em Espanha, mas também em Itália (as yields da dívida pública italiana a 10 anos rondam agora os 6%). Pelo contrário, a Alemanha continuou a evidenciar-se como mercado de refúgio, tendo a procura contribuído para que os juros das obrigações de divida alemã recuassem, pela primeira vez, para valores negativos no prazo de dois anos. Nos mercados bolsistas, os principais índices dos dois lados do Atlântico acentuaram tendências de queda, verificando novos mínimos, assim como, no mercado cambial, o EUR/USD testou e quebrou níveis de suporte, chegando a atingir novos mínimos do ano.

Entretanto, na mesma semana, e como forma de atenuar a situação em Espanha, a Comissão Europeia revelou abertura para que o país possa corrigir até 2014 o seu défice orçamental para menos de 3% do PIB, referindo, contudo, a importância de apresentação de um plano orçamental sólido nos próximos dois anos e de um controlo efectivo das despesas das regiões autónomas.

Os acontecimentos da semana vieram evidenciar a debilidade do sector financeiro espanhol, que poderá ser mais acentuada do que se esperava e que poderá implicar a utilização de fundos de emergência europeus para satisfação de necessidades de recapitalização. No entanto, actualmente e de acordo com o Tratado Europeu, estes fundos não podem ser utilizados para injecção directa de capital em bancos europeus. Neste contexto, Espanha tem estabelecido um diálogo no sentido de se encontrar uma solução a nível europeu para apoiar financeiramente o sector bancário, muito penalizado no país pelo aumento do crédito malparado e pelo colapso do mercado imobiliário. As próximas semanas serão decisivas para o futuro do euro, sublinhou o Ministro da Economia espanhol, declarando a importância ou a necessidade de se caminhar para uma "união bancária".




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