Comunidade
Nunca concordei com a frase de Balzac que diz que por detrás de uma grande fortuna está sempre um grande crime.
Acredito que a prosperidade (sobretudo se associada à igualdade) é essencial ao nosso bem-estar colectivo. E que cada um de nós a pode alcançar por meios legítimos. Claro que a crise financeira tem desmascarado muita ganância e vigarice, mas não embarco na demagogia fácil contra o capitalismo e contra os "ricos".
Outra das classes cada vez mais "debaixo de fogo" é a dos políticos. Todos ouvimos falar dos casos de certas pessoas que, de um momento para o outro, atingiram um património muito acima da remuneração normal da sua actividade. Apesar dos indícios, nestes casos, a Justiça não tem sido capaz de punir os alegadamente corruptos. Veja-se o caso de Mesquita Machado, no poder há 32 anos em Braga. Muito se fala sobre corrupção, tráfico de influências e cumplicidades com empreiteiros (ex. Bragaparques), mas nunca se conseguiu provar nada. Podia também aqui falar dos casos de Fátima Felgueiras ou Avelino Ferreira Torres.
São raras em Portugal as condenações por corrupção, gerando um sentimento de impunidade. Como o sistema não se consegue punir os culpados, separando o trigo do joio, tende a generalizar-se a ideia de que os políticos são desonestos. Que só querem "governar-se". Esta generalização, apesar de muito injusta, pode tornar-se uma ameaça para a democracia.
No Parlamento, na semana passada, perdeu-se uma boa oportunidade para melhorar o sistema legal de combate à corrupção. A maioria socialista chumbou dois projectos contra o enriquecimento ilícito (PSD e PCP) que visavam punir os agentes públicos com um património manifestamente superior aos seus rendimentos profissionais.
Este processo gerou um grande equívoco. Ao contrário do que alguns disseram, certamente sem ler o texto, o diploma do PSD não inverte o ónus da prova. Pelo contrário, diz claramente que a "prova da desproporção manifesta que não resulte de outro meio de aquisição ilícito (...) incumbe ao Ministério Público".
É respeitado o princípio constitucional da presunção de inocência, competindo à acusação provar os elementos do crime, inclusive o nexo de contemporaneidade entre o enriquecimento "suspeito" e o exercício das funções públicas. Ao acusado cabe apenas defender-se das provas apresentadas contra si, tal como acontece com qualquer outro crime.
Não colhe pois o argumento de inconstitucionalidade. Só assim se compreende que a criação deste tipo criminal seja recomendada na Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção, já ratificada por Portugal.
Onde já existem problemas constitucionais é na proposta do Governo que atribui à Administração Fiscal (dependente do Governo e, por isso, passível de instrumentalização política) o poder de aplicar uma taxa fiscal agravada (60%) para rendimentos "suspeitos". Esta "pena fiscal", aplicada administrativamente, sem as garantias de defesa do Processo Penal, parece ser inconstitucional. Repare-se que cabe ao contribuinte provar que os seus rendimentos não são suspeitos para conseguir afastar a taxa agravada de 60%.
O combate à corrupção e ao crime económico devem ser uma prioridade política de todos os partidos. O único modo de construirmos um país mais próspero, capaz de gerar riqueza legítima, é através de um combate "sem quartel" à riqueza ilícita. Não adianta discutir soluções teoricamente perfeitas que não funcionam na prática, como se tem visto. Não faz sentido invocar a defesa do estado de Direito, como fez o PS no Parlamento, quando é esse mesmo estado de Direito que está em causa se nada fizermos para combater a corrupção. O peixe apodrece sempre pela cabeça.
paulopesmarcelo@gmail.com
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Paulo Marcelo, Advogado
Comentários (2)
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Oh meu caro Marcelo ! Não nos dê música jurídica nem argumentos florentinos ! Balzac era especialista em senhoras com IMC elevado e não em "magia financeira e engorda financeira milagrosa" !
Não sei se serei o 1º a comentar, mas aposto que vão haver comentários a dizer que o artigo é isto e aquilo, e que há que tributar esses malvados com rendimentos elevados. Há que fazer com que todos tenham rendimentos baixos, pelo bem da igualdade, todos devemos ter baixos rendimentos. É assim mesmo.