O confronto entre o conteúdo do novo livro de Bill Clinton “Back to Work,” recentemente publicado, e o conjunto de medidas de austeridade que todos os dias são anunciadas em Portugal sem que as questões da produção, do investimento e do emprego sejam objecto de grande discussão pública, leva-me a recordar o que o prémio Nobel da economia, Paul Krugman, tem várias vezes referido, sobre a necessidade de se responder à crise com soluções do lado da procura, e não apenas com austeridade.
É a velha controvérsia, que os economistas conhecem bem, em torno das conhecidas políticas monetaristas.
É hoje cada vez mais claro que caminhamos rapidamente na Europa para um modelo social mais anglo-saxónico, onde a saúde e a educação, que são hoje tendencialmente gratuitas, passarão cada vez mais a ser tendencialmente pagas. É uma questão ideológica de raiz liberal, onde as políticas de acção social se concentram especialmente nas classes sociais mais pobres, em detrimento das políticas públicas universais do ainda actual modelo social europeu, situação que emerge como resposta aos graves problemas de endividamento existente.
Embora não pretenda questionar a validade deste modelo liberal - que evidentemente não defendo - estou com Bill Clinton e com Paul Krugman quando ambos levantam a questão, para mim central, da "austeridade pura e dura" sem ser acompanhada de uma política de estímulo à produção e ao emprego, além da manutenção do crédito bancário e da liquidez ao mercado.
Será difícil compreender como é que, por exemplo em Portugal, se conseguirá suster o inconformismo dos cidadãos quando forem confrontados, no seu quotidiano, com uma redução brutal do seu rendimento disponível, quer pelo aumento dos preços, quer pelo aumento dos impostos ou redução de salários, que os deixará sem poupança alguma, num ambiente económico com uma quase total paralisação do investimento e uma queda alarmante do emprego e do PIB.
Não é por isso de estranhar que comecem a aparecer pessoas prestigiadas e por isso escutadas, como há dias o dr. Mário Soares, a recomendarem a emissão de moeda pelo BCE, à semelhança do que em tempo terá feito a Reserva Federal nos EUA, como forma de se ultrapassar a previsível queda do produto nacional bruto. É uma medida que pelos seus previsíveis efeitos inflacionários os economistas em geral não gostam muito.
Mas mete um pouco de medo ao cidadão comum a adopção só de medidas de austeridade. Não será possível um compromisso? O que diferencia os grandes governantes é a sua capacidade de combinar o que parece impossível. Não será isto que os torna grandes? A meu ver vale a pena o esforço porque tenho imensas dúvidas sobre o sucesso desta política.
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Francisco Murteira Nabo, Economista
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