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Miguel Morgado

Eles e nós

02/04/10 00:03 | Miguel Morgado 



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Há quem vaticine o recuo da integração europeia como resultado da crise financeira que a margem sul da Europa vive actualmente. Mas se há algo que os últimos 30 anos indicam é que há qualquer coisa de auto-propulsionado na centralização do poder na União Europeia.

Os impasses aparentes convertem-se sempre em novos passos em frente. Por isso, talvez seja mais seguro prever que desta crise financeira resultará mais federalismo, mais centralização, menos autonomia dos Estados-membros. Um exemplo: os economistas sempre avisaram que sem centralização fiscal, a União Monetária vacilaria diante de um grande choque. Não obstante, fez-se a dita união sem federalismo fiscal. Agora, os europeístas mais convictos têm a oportunidade e o trunfo de que precisavam. Chama-se Grécia/Portugal. É a oportunidade para criar um orçamento europeu digno desse nome, com imposto europeu à mistura. É a ocasião para justificar sobretudo a desinibida ingerência política e económica nos Estados que não sabem comportar-se. Doravante todos os que desconfiarem da centralização do poder europeu e do federalismo estarão condenados a jogar à defesa. Afinal, não ficou demonstrado que de outro modo as integrações económicas se tornam disfuncionais?

E Portugal? Até meados dos anos 90, Portugal sonhou com a "convergência real". Era uma questão de tempo até sermos como "eles". Longe de ser uma miragem, era uma matéria concreta e até quantificável. Depois, veio o euro. No início, todos pensaram que o euro era precisamente a confirmação de que estávamos muito perto de nos confundirmos com "eles". Fosse por causa de uma taxa de câmbio excessivamente apreciada, fosse devido à nossa proverbial indisponibilidade para viver com regras disciplinadoras que uma união monetária impõe, o certo é que o euro foi o ponto de viragem nas nossas ilusões. A apreciação real que a nossa economia sofreu desfez todas as fantasias. "Eles" acabaram por ficar cada vez mais distantes. Nós por cá, frustrados pela pobreza, pela estagnação infindável, talvez até enfeitiçados por uma resignação fatalista, sentimo-nos mais e mais seduzidos pela ideia de nos tornarmos numa colónia do Norte. Sem grandes entusiasmos, é verdade, e arrastando os pés.

Diante da alternativa que seria sempre custosa e morosa (basta pensar nos longos 15 anos que a paciente e disciplinada Alemanha demorou a corrigir os seus desequilíbrios), este destino aparece como razoável. Nem o sorriso trocista do Norte nos dissuade, nem o desastre que o projecto anuncia nos demove. O medo do futuro justifica muita coisa.




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