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O ex-ministro da Educação explica o que está por detrás do atraso educativo português.
São três as dimensões analisadas por David Justino, autor de "É difícil educá-los", neste ensaio onde o professor partindo da consciência do atraso educativo português, analisa os diferentes factores que poderão estar por detrás desta realidade. Em entrevista afirma que o que falha na educação é "o mesmo que falha nos restantes sectores: incapacidade de mobilizar e organizar recursos para objectivos de médio e longo prazo".
Leia uma parte da entrevista, que poderá ser lida na íntegra em www.livrosemanias.blogs.sapo.pt.
O que falha em Portugal, em termos educativos?
O mesmo que falha nos restantes sectores: incapacidade de mobilizar e organizar recursos para objectivos de médio e longo prazo. Porque é que a educação teria de ser diferente dos problemas de competitividade empresarial, da organização social ou do desenvolvimento cultural? Durante décadas apenas nos centrámos em ter mais educação e só mais recentemente tentamos melhorar os níveis de desempenho em comparação com os nossos parceiros internacionais. Em vez de nos preocuparmos com a qualidade das aprendizagens, andamos preocupados com problemas acessórios como o fecho de escolas, os agrupamentos, os concursos de professores. Tudo isto é instrumental. O que nos falta é uma visão de futuro para a educação que permita sustentar um modelo de crescimento económico que também ninguém quer saber qual vai ser. Daqui a 15 anos, que é o tempo médio necessário para formar uma nova geração, que tipo de profissionais é que a economia vai precisar? Com que perfis de formação? Que tipo de conhecimentos e competências serão críticas daqui a duas décadas? O que se deve valorizar, a acumulação de conhecimentos ou o desenvolvimento da capacidade de pensar os problemas? São estas questões que precisam de ser respondidas, mas será bom que o sejam numa perspectiva integrada e com uma visão de futuro. O tempo da educação não se compadece com o imediato nem com o mediático.
O que se pode fazer para melhorar o atual estado da educação?
O que tentei demonstrar no meu livro é que temos progredido no que respeita a "mais educação". Temos aumentado a escolarização tornando-a mais vez mais generalizada entre a população e com mais tempo de frequência, temos vindo a reduzir os níveis de abandono e de insucesso escolares, temos melhores estabelecimentos escolares e uma rede que tem vindo a ser adequada às novas realidades das populações e do território. Começa a chegar a altura de pensarmos prioritariamente no que se ensina e no que se aprende, como se ensina e como se aprende de forma a aumentar a qualidade da formação e a tornar as novas gerações melhor preparadas para enfrentar os desafios do futuro. Muitos desses desafios nem sequer os adivinhamos. Por isso precisamos de lhes transmitir uma sólida formação de base em que a capacidade de pensar e resolver problemas possa ser valorizada, em que os hábitos de trabalho, o rigor e a disciplina, a abertura perante o mundo e a defesa da nossa identidade como povo, possam ser as traves mestras de uma cultura assente no conhecimento, na ciência e na capacidade de nos integrarmos nos grandes movimentos globais. Vamos ter de reinventar o sistema de ensino. Quanto mais tarde o fizermos, mais atrasados ficaremos.
Perfil: David Justino
Economista de formação, David Justino doutorou-se em Sociologia em 1987, tendo recebido o Prémio Calouste Gulbenkian de Ciência e Tecnologia. Actualmente Professor associado da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, o professor é investigador do CESNOVA e assessor da Presidência da República para Assuntos Sociais. David Justino foi deputado à Assembleia da República entre 1999 e 2002, eleito pelo círculo eleitoral de Lisboa. Em 2002 foi o escolhido por Durão Barroso para ministro da Educação, cargo que desempenhou até 2004.
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