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Carlos Marques de Almeida

Economia & política

22/06/12 00:02 | Carlos Marques de Almeida 



A Grécia salva a Europa por dois dias. Agora só falta a Europa salvar a Grécia para se salvar a si própria. Economistas, políticos e comentadores esperam nova solução para a crise na próxima cimeira para a efectiva salvação da Europa.

Para além da dívida soberana, a Europa sofre a fadiga de tantas salvações. E o projecto da Europa suportado na solidez do euro ainda aguarda por uma decisiva solução.

A Europa está a mover-se para além da economia de mercado para se transformar numa agregação de sociedades de mercado. No lugar dos estados-nação a Europa inventa as sociedades de mercado. As vantagens são óbvias, uma vez que os mercados não produzem valorações morais, prometem a eficiência e garantem a liberdade. Na Europa para além da economia de mercado não existem perdedores, tanto mais que o mercado produz o efeito de reproduzir o sucesso e de multiplicar a prosperidade das sociedades de mercado integradas. Esta situação teoricamente perfeita implica na realidade a prevalência do relativismo económico e moral, a completa ausência de uma concepção do bem comum às nações da Europa e suporte do projecto de aprofundamento europeu. A Europa vive no vazio existencial de um desígnio moral, confundindo este requisito com uma postura paternalista, didáctica e autoritária só possível nas profundezas da política do curto prazo.

Face a tão lapidar lacuna, a Europa envolve o destino na busca incessante do crescimento económico. O grande dogma que como um espectro assombra os políticos europeus é sem dúvida alguma o misticismo do crescimento económico. Na visão do mundo que a Europa projecta está a ideia de prosperidade como o grande equivalente moral da felicidade. A prosperidade que se quer constitutiva; a riqueza que se quer instrumental; a felicidade que se quer infinita. Mas fraca é a memória da Europa. Aristóteles fala de felicidade na dependência da capacidade e da disposição para se proceder aos juízos práticos que cada ocasião contingente impõe e exige. Ou seja, a felicidade reside invariavelmente no factor humano, e o factor humano remete a reflexão sobre o mundo para o complexo universo da política. Neste momento, a Europa não tem uma visão política esclarecida, nem sobre a situação no presente, nem sobretudo sobre o futuro da Europa enquanto centro e matriz de uma civilização. Para os tecnocratas de Bruxelas, a equação "política" significa acumulação de capital mais progresso técnico igual a crescimento económico.

Um aviso à navegação. Estas reflexões não são de esquerda nem de direita. São apenas uma outra visão para além do ‘fetiche' dos gráficos macroeconómicos e da voz fina dos políticos de escrita grossa.

naturezadascoisas@gmail.com
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Carlos Marques de Almeida, Investigador em Teoria Política




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