Portugal está metido numa crise sem precedentes, mas as discussões políticas continuam a ser niveladas por baixo, entre a ‘pieguice’ e o Carnaval, temas sem a mínima importância e que consome tempo e atenção que deveriam estar centrados no que é realmente importante: Portugal dificilmente conseguirá regressar aos mercados em 2013, mesmo que faça tudo bem. E, então, o que sucederá?
As palavras de Pedro Passos Coelho não foram a forma mais feliz de espelhar uma realidade que é dura. Em primeiro lugar, porque ‘piegas' não é propriamente a melhor forma de caracterizar os portugueses, especialmente nestes tempos que correm. Os portugueses são outras coisas, são talvez, sofridos, são facilitistas, são melancólicos, são pouco exigentes, consigo e com os outros.
Mas o primeiro-ministro não se limitou a pedir o fim da ‘pieguice'. Disse mais, e mais importante. Disse, no contexto de uma conferência sobre educação, que não podemos ter pena dos alunos "que sofrem tanto para aprender". Serve isto também para os portugueses, que estão a sofrer para aprender que não há tempo, nem dinheiro, para complacências, paternalismos e facilitismo. Não nos podemos dar, colectivamente, a esse luxo, porque em breve teremos de pedir dinheiro emprestado aos mercados, outra vez, e a sua avaliação vai ser exigente.
É, também por isso, que a discussão em torno da tolerância de ponto do Carnaval é desproporcionada face à sua real importância. É absurda. O Governo pensou bem, mas executou mal. As câmaras municipais concedem tolerância de ponto, as empresas têm nos seus acordos colectivos a paragem no dia de Carnaval, Alberto João Jardim vai disfarçar-se, talvez de ‘rico', e vai desfilar, como sempre. Tudo somado, tanto barulho, e impacto social, com resultados limitados, ou nulos.
Mais relevante hoje, e esse deveria ser o assunto a concentrar a discussão política, é perceber como vamos voltar a financiar a nossa economia, e o nosso Estado, quando acabar o cheque da ‘troika'. Vale a pena olhar para a Grécia e perceber que o nosso tempo esgota-se e que não estaremos imunes a um ‘default' grego. A reestruturação da dívida da Grécia, leia-se um perdão de dívida de pelo menos 65% do total, a aplicação de novas medidas de austeridade e um novo empréstimo não serão provavelmente suficientes para manter o País no euro. Porque não há crescimento.
Portugal está mais próximo da Irlanda na execução do plano de austeridade, mas está mais próximo da Grécia na estrutura da sua economia. E, sem crescimento, o Governo tem uma de duas soluções: mais dinheiro em 2014 ou a reestruturação da dívida pública já em 2012.
Pedro Passos Coelho vai manter a primeira opção como a única opção, enquanto o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, vai ouvir os mercados, em segredo, sobre a segunda. Das duas, a melhor solução é a terceira, é também a mais difícil, é criar condições para a economia crescer e tornar a nossa dívida solvente.
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António Costa, Director
antonio.costa@economico.pt
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