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Luciano Amaral

Dominó

19/01/12 00:02 | Luciano Amaral 



Uma atrás da outra, vão caindo as peças do dominó. Primeiro foram as “cimeiras decisivas”. Que nunca o foram. Agora é a injecção de liquidez pelo Banco Central Europeu, a panaceia em que tantos acreditaram para resolver a crise europeia.

Note-se que nunca o banco central fez tanto como nos últimos três meses para sustentar a União Económica e Monetária. A passagem de testemunho de Jean-Claude Trichet para Mario Draghi não foi apenas formal. O banco mudou mesmo de política: em Novembro, reduziu a taxa de juro de 1,25% para 1% (invertendo decisões que vinham apenas do Verão); em Dezembro, inaugurou um programa de empréstimos de longo-prazo aos bancos europeus no valor de 500 mil milhões de euros, em condições extremamente favoráveis; e continua presente diariamente no mercado secundário de dívida, actuando como bombeiro que compra emissões dos países problemáticos, assim contribuindo para a manutenção do nível de procura e para a redução do juro a que é emitida no mercado primário.

Mas na passada sexta-feira, a agência Standard & Poor's fez o favor de ignorar tudo isto (e a iminente assinatura de mais um tratado "europeu") e baixou a notação da generalidade das dívidas da UEM (incluindo a da França, ao mesmo tempo que lançou a portuguesa no "lixo"). Poupou apenas o coração duro: Alemanha, Holanda, Bélgica e Luxemburgo. Com a importante consequência adicional de o mecanismo criado pela União Europeia para financiar os países em assistência (a FEEF, Facilidade Europeia de Estabilização Financeira) ter visto também a sua notação degradada, o que deverá tornar a taxa de juro a que emite dívida (e com a qual assiste países como Portugal) mais elevada.

A primeira e mais previsível reacção de diversos quadrantes, incluindo insinuações da própria Comissão Europeia, foi gritar contra uma presumível conspiração americana para destruir o euro. Não se percebe porque quereriam os americanos fazer uma coisa de que seriam os maiores prejudicados. Isto na presunção já de si absurda de que as agências de notação andam a mando do governo americano.

Talvez os teóricos da conspiração devessem antes perceber outra coisa: que a sua posição é a exactamente a mesma das agências de notação, ou seja, é a posição de quem considera que tudo o que foi feito pela UE até agora não basta para garantir a salvação do euro. E em boa coerência deveriam perceber que a facilitação monetária do BCE não é senão uma política de monetarização de dívida. Coisa que em si mesma e sem mais nada credível no horizonte é apenas um caminho de ruína, desprovido de qualquer viabilidade e estabilidade.
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Luciano Amaral, Professor universitário




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