Segundo noticiou a imprensa, Christine Lagarde, directora-geral do FMI, terá avisado que o mundo corre o risco de resvalar para uma grande depressão, como a que se viveu nos anos 30.
É um facto que a actual já dura há cerca de 4 anos, que a instabilidade financeira continua por resolver, que o PIB das economias desenvolvidas ainda está geralmente abaixo de 2007 e que os próximos 2 anos apresentam perspectivas muito baixas ou negativas, que o desemprego é elevado, etc. Ambas as crises - como praticamente todas as crises de dimensão semelhante - têm como ponto de partida um grande sobreendividamento. De facto, Irving Fisher, um notável economista americano dos anos 20-40 (de novo muito invocado), reconhecia que nos grandes ‘booms' e nas grandes depressões o papel dominante era desempenhado pelo "sobreendividamento para começar" e pela "deflação que se segue em breve". E que o primeiro é frequentemente motivado por um excesso de confiança - a tal coisa dos optimistas contra os pessimistas, muito apreciada aqui há uns tempos atrás... O grande risco destas situações, e que este autor teorizou, é quando o processo de desalavancagem do excesso de endividamento conduz a um processo de deflação e os dois se entretecem numa espiral auto-destrutiva. E que contém o que o autor considera "o principal segredo... [d]as grandes depressões: quanto mais os devedores pagam, mais ficam a dever" (em termos reais). Ou seja, quando se desenvolve a "segunda perna" da sua teoria. E aqui é que se registam diferenças substanciais que podem evitar a repetição do que se passou nos anos 30. Há hoje mais conhecimento, sobre a situação e sobre como lidar com ela, e há mais instrumentos. Um dos maiores conhecedores das causas e do processo da grande depressão, Ben Bernanke, está hoje à frente do Fed americano. Por outro lado, a economia mundial tem hoje mais mecanismos compensatórios - nomeadamente com as economias emergentes a crescer - e, para os grandes blocos, um sistema de câmbios flutuantes (porém, com a grande e significativa excepção da China), que não havia nos anos 30. Onde as semelhanças são maiores e mais preocupantes é na zona euro. É hoje reconhecido que os efeitos recessivos que originaram a grande depressão foram muito ampliados pelo funcionamento do sistema de câmbios fixos da altura - o Padrão Ouro. De tal forma que os países que mais tempo se mantiveram no sistema foram os que mais aprofundaram a recessão e os que mais cedo saíram foram os que mais cedo recuperaram. Foram duas as vias pelas quais o Padrão Ouro agravou a depressão. A rigidez dos salários nominais e a recusa dos países com excedentes cambiais em seguir as regras do sistema, inflacionando as respectivas economias. A rigidez salarial não permitiu ajustar os custos laborais à nova situação económica e foi consumindo competitividade e afundando as economias na recessão. Só abandonando o sistema, alguns países conseguiram, através da desvalorização, reduzir os salários reais, tornar-se competitivos e voltar a crescer. Por sua vez, a atitude dos países excedentários - que também escolheram o caminho da austeridade - criou um enviesamento deflacionário no sistema que conduziu à espiral referida por Fisher. Aquelas duas vias parecem estar hoje abertas na zona euro. E existe um fenómeno curioso - que só consigo atribuir a um profundo trauma psicológico, mas que, no meu entender, tem condicionado a abordagem europeia da crise -, que é o de a Alemanha manter muito viva a memória da hiperinflação dos anos 20 - que considero irrepetível -, mas ter obliterado por completo a memória da depressão dos anos 30, cujos efeitos no desemprego muito contribuíram para a ascensão nazi.
Espero - porque, contrariamente ao que dizem de mim, sou optimista - que aos europeus se aplique o que Churchill dizia dos americanos: "... podemos sempre confiar que farão o que é certo... depois de terem esgotado as restantes possibilidades". E que, portanto, as semelhanças históricas se ficarão por aqui e os receios da sra. Lagarde não se concretizem.
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Vitor Bento, Economista
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