O primeiro grande teste foi nas eleições de 6 de Maio: a Grécia falhou e não conseguiu formar governo. O próximo teste será a 17 deste mês e o mais provável que venha a suceder o mesmo: teremos então a insolvência, a desolação, o caos social.
Antecipando o cenário, já há quem fale da saída "controlada" do euro, seja lá o que isso for. Eu sinto o mesmo, embora prefira não revelar pormenores. Vou apenas suscitar esta pergunta: e depois?
O que a lógica sugere é que a próxima vítima seja Portugal. Daí que todos os olhares passem a incidir sobre nós: uma recessão profunda, um desemprego galopante, uma dívida pública ingerível e uma dívida externa para que não se vê solução. Nada de grave, se atendermos a que há uma ‘troika' que nos controla mas também nos financia. Sucede que essa mama vai acabar em Setembro de 2013: como é que, depois disso, irão reagir os mercados?
Há duas hipóteses a considerar. A primeira é a ‘troika' deixar-nos entregues a nós próprios: os mercados dizem não ou, em alternativa, propõem-nos uma taxa de juro proibitiva. A segunda é a ‘troika', antecipando a desgraça, decidir apoiar-nos por mais algum tempo: aqui já não há uma solução mas apenas um adiamento. Quer dizer, o nosso problema não é sair ou não sair do euro; é sair logo ou um pouco mais tarde. A diferença é irrelevante.
O regresso ao escudo será acompanhado de uma desvalorização externa porventura não inferior a 50%, o que provocará uma queda brutal do nível de vida. E aqui as famílias serão divididas entre as que têm e as que não têm dívidas: as não endividadas talvez sobrevivam; as outras estão feitas, porque as dívidas continuarão em euros. Os pensionistas, na melhor das hipóteses, manterão a pensão nominal em vigor - cerca de metade do valor real.
Agora a boa notícia. A desvalorização do escudo vai levar a um acréscimo das exportações e a um decréscimo das importações, o que se traduzirá por uma dupla melhoria da nossa balança comercial. E, com o tempo, a sermos bem-sucedidos, os actuais défices serão transformados em excedentes até ao equilíbrio total. Mas não se pense que tudo isto é para amanhã. Um ajustamento deste tipo nunca será exequível a um período inferior a dez anos.
Apertem os cintos.
PORTUGAL ENCURRALADO
| Da recessão (Índices, 2006=100) | À dependência (Dívidas, % PIB) |
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Fonte: Eurostat.
Se quisermos perceber o buraco em que nos metemos, basta-nos olhar para o investimento: no final deste ano estará em cerca de metade do valor de 2006(!). A taxa de desemprego só poderia explodir. Mas as duas dívidas, a pública e a externa, também não ajudam: a primeira, mesmo controlada pela ‘troika', continua a subir em flecha; e a segunda só se resolve através de uma bruta desvalorização. O país está encurralado...
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Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt
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