Para o Governo de Passos Coelho os portugueses são uma inconveniência política.
Com reformas estruturais e programas de austeridade, a existência de portugueses torna-se um obstáculo à boa governação. Quando é preciso diminuir a despesa pública, o Estado produz funcionários públicos sem função e a caminho do desemprego. Quando é impossível aumentar o investimento privado, os portugueses sobram aos milhares e encontram-se na fila do desemprego. Os desempregados públicos e privados procuram a protecção de um Estado Social em retracção e sem capacidade de resposta. A dupla contracção do público e do privado gera a maior produção registada nos anuários da desilusão nacional - gente sem ocupação, sem meios de subsistência, sem perspectivas e sem dignidade. Pelo nível do desemprego, Portugal é um país que sofre de um excedente de portugueses. Com a economia anémica, o investimento moribundo e para humilhação dos portugueses, o país caminha alegremente para o cemitério de todos os sonhos. Os portugueses são uma raça em extinção que é excedentária no seu país. Nascem cada vez menos portugueses, mas sobram cada vez mais portugueses num país que não tem lugar para os seus cidadãos. Os mais felizes são certamente os que não nascem. Com o desemprego a aumentar, com a protecção social a diminuir, Portugal vai chegar à situação em que uma fatia larga da sua população pura e simplesmente não terá uma fonte de rendimento e logo uma apólice para a dignidade. São os novos portugueses a fundo perdido que se juntam aos velhos portugueses de mão estendida. Os novos portugueses a fundo perdido são a geração com habilitações encurralados num País com uma economia estagnada. Uma economia que persiste no atraso e que não é capaz de absorver a inconveniência de uma geração de portugueses com habilitações.
A responsabilidade é de todos os governos nos últimos dez anos, governos a transbordar de políticos práticos. Como escreve Keynes na General Theory, os políticos práticos julgam-se livres de qualquer influência intelectual quando na realidade são escravos dos economistas defuntos. Cegos com a autoridade debitam políticas como quem ouve vozes, vozes de académicos passados. Este é o retrato de Portugal. Passos Coelho é refém de Hayek e do neo-liberalismo, enquanto Seguro é cativo de Keynes e do socialismo democrático. Passos Coelho é pelo governo mínimo, pela iniciativa privada e pela responsabilidade individual. Seguro é pelo governo máximo, pelo investimento público e pela responsabilidade social. Passos Coelho é pela contenção e saneamento da dívida, Seguro é pela expansão e estímulo da economia com mais impostos e mais despesa do Estado. Este debate tem mais de 80 anos. No entanto, Passos Coelho e Seguro não têm resposta para a única pergunta que conta - para que serve Portugal quando não há lugar para os portugueses?
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Carlos Marques de Almeida, Investigador em Teoria Política
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