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Wall Street

De “senhores do universo” a empregados de balcão

Marta Marques Silva  
06/06/09 00:05

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As histórias de quem negociava milhões em Wall Street e sucumbiu à crise financeira. Hoje são guias turísticos, pasteleiros ou até jogadores de poker.

"O meu nome é Andrew Luan e hoje serei o vosso guia. Durante as próximas duas horas vou levar-vos ao centro da crise financeira", é assim que o ex-corretor do Deutsche Bank inicia uma viagem, no mínimo ‘sui generis', por Wall Street. Especializado na negociação de CDOs ('collateralized debt obligations'), hoje mais conhecidos por activos tóxicos, Luan era, até ao início deste ano, responsável pela gestão de mais de mil milhões de dólares. As paragens na Bolsa de Nova Iorque, Goldman Sachs, Lehman Brothers ou na Reserva Federal são obrigatórias mas não são os lugares que tornam esta visita guiada tão especial. São sim as histórias que só um ‘insider' poderia contar. O colapso dos bancos e os lucros milionários de alguns ‘traders', o "sistema bancário de sombras" que o governo ignorou até ser tarde demais, o estilo de vida de um ‘trader' em Nova Iorque e a cultura da profissão, o que são CDO's e como destruíram instituições financeiras em todo o mundo, onde vivem e como trabalham os ‘masters of the universe", assim auto-intitulados. Por 40 dólares, Luan responde a estas e muitas outras questões. E, ao que tudo indica o negócio estará a correr bem. Através do seu site, www.thewallstreetexperience.com, Luan já está a contratar colaboradores.

Mas, enquanto o antigo ‘trader' do Deutsche Bank conseguiu colocar a sua experiência ao serviço de uma nova carreira, outros não tiveram tanta sorte. Bryan Gunderson, especialista da JP Morgan em investimentos estruturados nos mercados accionistas até Agosto último, enviou mais de 100 currículos sem sucesso. Decidiu então voltar à escola: à B-School, para ser ‘barman'. "Chegou ao ponto em que simplesmente precisava de outro emprego. Sempre frequentei bares, então porque não estar do outro lado?", justifica. O salário passou de 111 mil dólares anuais para 30 mil. Já Billy Achtsaikan, colega de Gunderson na B--School, continua desempregado. Passou pela Morgan Stanley e pela Bear Sterns e conta: "Há dois anos, havia dias em que me encontrava com dois ‘caçadores de talentos' e eles ofereciam-me, literalmente, mais de 10 empregos cada um". Mas, a crise trouxe com ela uma realidade diferente. Desde Agosto de 2007 a indústria financeira já perdeu mais de 25.000 postos de trabalho e o Governo estima que, até 2012, mais 35.000 empregos sejam extintos.

Carlos Araya sentiu na pele esta nova realidade. Habituado a pedir lagosta, ‘filet mignon' e avultadas garrafas de vinho tinto enquanto cliente do Palm, situado na baixa de Manhattan, hoje é empregado do restaurante. Após quase dois anos à procura de emprego na sua área - negociava crude na Bolsa de Nova Iorque - Araya candidatou-se ao cargo de chefe de sala do Palm. O salário passou de 200 mil dólares por ano para 25 mil.

E depois há quem tenha, tal como Luan, tomado o futuro nas mãos. É o caso de Jessica Walker, antiga vice-presidente de estratégias de crédito do Bear Stearns, que decidiu ensinar crianças a cozinhar. Criou a empresa "Cupcake Kids" que além de aulas de cozinha para crianças, organiza festas de aniversário. É também o caso de Jeff Salmon, especialista em ABS ('asset-backed security'), outro variante de activos tóxicos, que juntamente com a sua mulher abriu um cabeleireiro em New Jersey. E depois há quem não consiga abandonar a emoção do "jogo": "Conheço alguns que começaram a jogar poker para pagar as contas", diz Gary Witt, um ex-director da Moody's, hoje a dar aulas na Temple University, "especialmente ex-traders", conclui.





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