E no entanto, a Europa move-se. Os mercados pressionam os países no sentido da insolvência com a Grécia à beira do precipício.
Ao abrigo do novo pacto financeiro, as instituições da Europa controlam os orçamentos nacionais e interferem na definição das políticas económicas. Os líderes dos países membros não evitam a ingerência nos assuntos de outros estados membros, veja-se os avisos de Merkel e as recomendações de Sarkozy. Existe uma linha invisível em que a bancarrota é utilizada como um dissuasor nuclear e a mais poderosa arma política.
A construção da Europa é mais um exemplo da Guerra Fria do que da Pátria das Nações. Enquanto tudo acontece, Portugal sofre de uma asfixia no debate político. Os líderes políticos em Portugal falam muito no intervalo em que fazem pouco. E só a medo e com a pressão da troika intervêm nos assuntos do país. Basta observar o discurso que preenche os dias políticos com divagações sobre feriados, "pontes", tolerâncias de ponto, mais o "menino da lágrima" e versões várias do entrudo.
No Portugal em regime de protectorado discute-se um ‘boulevard' para a Segunda Circular e uma Manhattan para Cacilhas. O Portugal político foge da realidade de um país falido com um ‘cocktail' de propaganda e demagogia.
Passos Coelho não sabe que a reputação de um primeiro-ministro cai mais depressa na rua do que as cotações na bolsa.
Os portugueses ouvem o primeiro-ministro e interrogam-se sobre quem governa Portugal. As declarações de ocasião não são um programa de governo. As medidas a metro, entre uma entrada e uma saída, não são a prova de uma política. E a perturbação aumenta com o confuso Seguro que subscreve partes do Memorando mas que não subscreve outras partes do Memorando. Neste ponto há alguma coerência - no PS, Seguro é líder do partido mas não concorda com as políticas do partido.
A ausência de liderança política provoca nos portugueses um espírito de revolta que não atinge o patamar da revolução. Em Portugal, como na Europa, assiste-se a uma profunda demissão dos políticos da condução da coisa pública. O vazio político tem sido preenchido pelos mercados que avaliam politicamente os países com ‘ratings' miseráveis e taxas de juro exorbitantes. São os mercados que projectam o futuro dos países perante a impotência de uma geração de políticos inúteis. Será que já não existem estadistas ou os mercados são apenas um sinal dos tempos?
Soma-se no topo os intelectuais de olhos bem fechados. T.S. Eliot era bancário, Pessoa escriturário e autor do "Banqueiro Anarquista", mas fica o conselho de Dickens em "Pickwick Papers" - faz o que a multidão fizer; e se existirem duas multidões, junta-te à mais ruidosa e grita.
naturezadascoisas@gmail.com
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Carlos Marques de Almeida, Investigador em Teoria Política
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