Ao findar 2011 é inevitável concluir que vivemos um ano histórico no que diz respeito à afirmação enérgica da cidadania activa participativa - alter e anti sistémica -, validada pela consagração dos “Movimentos sociais organizados e politicamente maduros” como actores de primeiro plano no actual sistema político mundial.
Neste sentido, deve associar-se 2011 a 1789 ou 1848, partilhando com estes momentos revolucionários a luta contra a injustiça e a iniquidade social, individualizando as suas demandas na denúncia das inaceitáveis características do actual modelo pós-capitalista mundial (de total domínio financeiro), na falta de democraticidade de muitas - senão todas - instituições de governança globais e na necessidade dos sistemas políticos se refrescarem de forma a permitirem a consagração de modelos de participação mais inclusivos.
Recordo que o ano começou com as "Primaveras Árabes", prosseguiu com os movimentos do "12 de Março", dos "Indignados" e centenas de manifestações contra as políticas de austeridade. Seguiu com a ameaça do referendo grego e com o ‘Occupy Wall Street' e culminou com mais manifestações, a iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Dívida Pública e a atribuição da revista Time da personalidade do ano ao "activista".
Do outro lado do espelho, assistimos a uma pronta reacção conservadora por parte das oligarquias instaladas, apressadas em reagir contra o desejo de mudança e em manter o ‘status quo'; com Durão Barroso a assumir o papel do Conde de Metternich, mediando os interesses da "Santa Aliança" (ler Nicolas Sarkozy e Angela Mekel) na tentativa de reestabelecer a ordem, suster a revolução e implementar novo modelo de controlo sistémico (leia-se substituição de governantes democraticamente eleitos por tecnocratas não sufragados).
Naturalmente que a História não se repete, que as características das revoluções democratizantes de 2011 pouco se assemelham às de 1789 ou 1848, mas em todo o caso, estamos perante o mesmo fenómeno: um conjunto alargado da população - hoje informada e capacitada - que se insurge contra um sistema que já não fornece respostas aos problemas da sociedade e que persiste em perpectuar um conjunto de privilégios não partilhados. E se na Revolução Francesa se clamava se por democracia e pela consagração política do "Terceiro Estado", na "Primavera dos Povos" (num contexto de imperialismo multinacional) por Liberdade e acesso democrático às nacionalidades subjugadas, hoje protesta-se por uma renovação sistémica de cariz democrático de alcance multi-institucional.
2012 pode ser, como em tantos anos pós-revolucionários, um ano de contra-revolução, de domínio reaccionário e subsequentemente de mais agitação social. Mas também pode ser um ano de apaziguamento, de construção tranquila de um novo modelo de governação mundial (ou pelo menos Europeu) e de re-equilibrio entre as forças sociais e políticas. Eu, da minha parte, desejo que o ano novo me permita libertar do jugo da oligarquia financeira e das vontades de dois líderes europeus, e que seja permitida a refinação de um sistema que, na sua essência, pode funcionar, se devidamente maturado num quadro de democracia inclusiva, transparência e equidade social.
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José Reis Santos, Historiador
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