No artigo de opinião que escrevi no Diário Económico, em Agosto último, referi cinco pontos que considero críticos para o sucesso de uma estratégia de saída da crise que o país actualmente atravessa.
Passados apenas alguns meses da tomada de posse do novo Governo é ainda cedo para fazer uma avaliação do seu trabalho, mas é já tempo suficiente para reter uma crescente preocupação sobre dois dos cinco pontos que então referi:
i) o elevado risco de uma crescente instabilidade social em resultado de uma má articulação do Governo com os Parceiros Sociais, tendo em conta os gravosos efeitos que as medidas que estão a ser tomadas terão sobre os cidadãos, em especial sobre a classe média baixa;
ii) a quase total ausência de medidas de estímulo à economia e ao crescimento, originando provavelmente uma recessão económica superior à originalmente estimada e, por isso, obrigando a um agravamento das medidas de aumento de receita e de redução da despesa para manter os objectivos dos ‘deficits' públicos para 2011 e 2012, em termos de percentagem do PIB.
Começa a ser claro que a estratégia do Governo é a de ir muito além do exigido pelo programa da Troika, concentrando além disso, no início do período, as medidas mais impopulares de forma a relaxar no final. É uma estratégia bem conhecida, que quase sempre tem a ver com os chamados ciclos eleitorais. Mas afigura-se bastante perigosa face à dimensão das medidas previstas no programa da Troika, correndo-se mesmo o risco de "matar o doente com a terapêutica," porque:
i) há um ponto de equilíbrio social a partir do qual a sustentabilidade não é mais possível, por absoluta incapacidade material dos cidadãos, pelo que só uma estratégia de concertação e compromisso permitirá evitar situações de ruptura que, a acontecerem, tornarão inviável qualquer plano. A meu ver estamos a caminhar nesse sentido, parecendo-me não ser o mais indicado;
ii) por este caminho é de prever que a recessão económica para 2011 seja pior do que a prevista, talvez na ordem dos - 3% do PIB, fazendo com que o PIB diminua num valor próximo dos 5 mil milhões de euros. Seria mais prudente tentar evitar o mais possível a degradação do PIB nestes dois anos, não só porque evitaria tomar medidas de austeridade adicionais tão gravosas, como permitiria uma recuperação económica mais rápida no futuro.
Sou dos que consideram essencial o reequilíbrio das contas públicas para o relançamento sustentado da economia, mas também sou dos que consideram possível fazê-lo num ambiente sem crispação e que limite ao necessário as medidas que para o efeito tenham de ser tomadas. Neste momento tenho as maiores dúvidas quanto ao sucesso do caminho que está a ser seguido.
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Francisco Murteira Nabo, Economista
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