Um facto interessante que observámos nos últimos dias foi o impacte que a percepção das dificuldades financeiras da Grécia teve no ambiente económico em Portugal e não só.
Em Portugal, muita gente ligou imediatamente a má situação da Grécia aos também visíveis problemas da nossa economia. E embora não sejam dificuldades e problemas exactamente idênticos, alguma razão existe para esta ligação. Porém, mais interessantes foram as consequências gerais para a zona euro e que se traduziram numa queda significativa do valor desta moeda europeia em relação ao dólar. Em si própria esta queda é bem-vinda. O valor excessivo do euro, que apesar de tudo ainda se mantém, está a penalizar fortemente a nossa economia, e desde este ponto de vista só podemos desejar que outras percepções pessimistas surjam e que o euro desça ainda muito mais.
Mas o mais instrutivo desta situação tem a ver com outro aspecto: é que as dificuldades de um pequeno país da zona euro podem, por esta via, afectar toda a zona, incluindo o seu gigante, que é a Alemanha.
Os Alemães, quando da instauração da moeda única, forçaram a criação de instituições de política monetária que garantissem que o euro fosse uma moeda forte. E fizeram-no de uma maneira subtil. Exigiram que o Banco Central Europeu tivesse como único objectivo da sua actuação a estabilidade de preços e isentaram-no de qualquer responsabilidade no valor da taxa de câmbio do euro em relação às outras moedas, para, assim, retirar qualquer veleidade do BCE de intervir quando o euro se valorizasse de mais.
Que os outros países aceitassem estas condições alemãs foi vergonhoso. Que nós quiséssemos aderir à moeda única neste enquadramento foi quase criminoso. Mas face a estes antecedentes é irónico constatar que a insuficiência das instituições da zona euro está a levar a que se vá tornando realidade o maior dos pesadelos dos Alemães. Ou seja, que as economias do Sul da Europa - olhadas sempre com sobranceria pelos germânicos - ponham em causa a sacrossanta fortaleza do euro. Vai ser muito interessante, tanto do ponto de vista económico como do ponto de vista político, ver que instrumentos os alemães usarão para castigar a Grécia de tal forma que sirva de exemplo para que os outros indisciplinados do Sul nunca mais afectem o euro e se reduzam à sua insignificância.
Actuação alemã expectável mas que, no entanto, esquecerá uma coisa fundamental: é que a própria economia alemã está longe de se poder considerar segura neste contexto de impacte cada vez maior, da globalização e dos chamados países emergentes no comércio mundial.
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João Ferreira do Amaral, Professor universitário
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