Os hipermercados foram um símbolo do cavaquismo. No final dos anos oitenta e início dos noventa, quando Cavaco Silva governava em maioria, nasceram os primeiros hipermercados – da Sonae de Belmiro de Azevedo – e rapidamente se tornaram um local de peregrinação da classe média da altura.
A piada da família a passear ao domingo à tarde no hipermercado vestida com um fato-de-treino florescente e de sapatilhas vem dessa data. Durante os últimos anos, com a proibição da abertura das grandes superfícies ao domingo, a anedota deixou de fazer sentido. Com a decisão de ontem do Governo em Conselho de Ministros pode regressar a caricatura.
Piadas à parte, a decisão governamental faz todo o sentido. Os hipermercados abertos ao domingo trazem vantagens para todos. Desde logo para as pessoas que têm mais opções. Ou seja, têm mais um dia em que podem planear a sua vida para fazerem compras. E para quem tem vidas muito ocupadas dá jeito. Também para as empresas é mais um dia em que podem fazer negócio. Estão em causa 180 megalojas que passam a vender ao domingo. E não são apenas os tradicionais hipermercados. São lojas de desporto ou o Ikea.
Do outro lado da barricada está o pequeno comércio. O seu argumento consiste em que as grandes superfícies funcionam como o eucalipto - seca tudo à sua volta. Não faz sentido. Primeiro porque o pequeno comércio de bairro também está fechado ao Domingo. Portanto, até hoje não quis aproveitar a proibição que afectava os hipermercados para prejuízo dos consumidores. Além disto, o pequeno comércio só vai sobreviver se apostar na diferenciação, na inovação e na qualidade. Deve atacar os preços baixos das grandes superfícies com a simpatia da proximidade com as pessoas, com a qualidade dos produtos acima da média e na inovação do serviço prestado aos clientes. É assim que se ganha quota de mercado e não querendo empurrar os outros para fora.
Há um outro argumento contra que ainda é mais perverso. Lojas abertas ao domingo promovem o consumo e combatem a poupança. Assim, devia estar tudo fechado para evitar tentações. Quem acredita nisto é porque não acredita na inteligência das pessoas. Os consumidores são mais espertos do que se pensa e sabem muito bem decidir o que é melhor para si. É preciso ter fé nas pessoas.
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Bruno Proença, Director Executivo
bruno.proenca@economico.pt
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