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António Ramalho

Competitividade educativa

17/11/09 00:01 | António Ramalho 



Na semana passada foi apresentado publicamente o Relatório da Competitividade 2009, instrumento de medição anual de um dos mais sérios trabalhos sobre a competitividade portuguesa realizado pela AIP-CE e denominado Carta Magna da Competitividade.

E sublinho a seriedade deste trabalho porque em 2003 representou um manifesto de intenções e compromissos, partilhando responsabilidades empresariais privadas com políticas públicas e, sobretudo, com objectivos quantificáveis e controláveis para os dez anos seguintes.

Passados cinco desses dez anos, é bom recordar prioridades claramente definidas, como a aposta nos bens transaccionáveis, a redução dos custos de contexto, a revolução tecnológica, ou a internacionalização diferenciada, como prioridades já trabalhadas, quantificadas e medíveis nessa altura.

Mas, na Carta Magna, é de salientar, sobretudo, a coincidência entre a primeira prioridade das políticas empresariais privadas e a primeira prioridade das políticas públicas: a qualificação dos recursos humanos, a educação e formação. Não sendo uma condição de competitividade de curto prazo (como, por exemplo, a fiscalidade, ou a flexibilidade laboral), é uma clara aposta no longo prazo.

Só que a Carta Magna não era um simples manifesto; era, também, um compromisso de resultados de divulgação anual. Pois concentremo-nos nos resultados obtidos na primeira das prioridades fixadas: a competitividade educativa.

Antes de mais, Portugal é o país da EU com menor percentagem de adultos que possuem, pelo menos, o ensino secundário. Entre os 24 e os 65 anos só 27% dos portugueses tinham este grau de ensino. Poderia parecer uma herança de um passado de ignorância, mas não é. Entre os 20 e os 24 anos apenas Portugal se encontra neste mesmo indicador, aquém dos 60% (54.3%). E nove países europeus estão acima de 80%. Com 18 anos, hoje, 76,6% dos europeus estão a estudar, mas em Portugal esse número é de 64,8%. Não admira, por isso, que lideremos a tabela do abandono escolar, com 36%, contra uma média europeia de 15%

Podíamos, quem sabe, compensar esta fraqueza com o ensino ao longo da vida. Mas, acima de 25 anos, apenas 5,3% participa em acções de formação, contra uma média europeia de 9,6%. Estamos, mais uma vez, em últimos, entre os países analisados. Poder-se-ia admitir que estivéssemos a poupar na educação, mas sucede que gastamos acima da média europeia (11% da despesa pública total).

Podia continuar a desfiar indicadores, números e rácios, todos no mesmo sentido. Porém, seria apenas masoquismo. Nós, portugueses, temos um problema, que somos nós próprios e as nossas baixas qualificações num mundo competitivo. Este problema, é bom de perceber, ninguém irá resolver por nós.
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António Ramalho, Gestor


Comentários

Jonas, | 17/11/09 10:51
O real problema de Portugal é a sua cultura retrógada, em que as pessoas se preocupam em demasia com a imagem e se esquecem das coisas que são realmente importantes na vida. Para além disso, li à uns dias um estudo que indicava que os Portugueses tinham o menor QI de toda a EU. Explicará isso o baixo nível de interesse pelo conhecimento?


A Anchas, Lx | 17/11/09 11:13
Bom artigo!... E, prosseguindo, questiono-me, qual o motivo do abandono escolar? Será sintoma da pobreza e do peso dos livros e das propinas no apertado orçamento das famílias? Será a fraca aptidão dos nossos alunos em aprender - e dos professores em ensinar? Será dos conteudos curriculares - pouco atractivos e estimulantes? Será a oferta pedagócica - desajustada com a procura do mercado de trabalho? Será...
No entanto, folheando os jornais, o que temos? Reformas anunciadas e proteladas. Avanços e recuos, ao ritmo das remodelações de ministério e de governo. Acção e reacção em resposta à politização dos sindicatos e à contestação de alunos, pais e professores. - Vivemos as políticas governativas a "salto", num clima de "guerra cívil" permanente!
E, da educação, passemos à justiça, à administração pública, às empresas... o ambiente é repete-se. Reclama-se mais produtividade, competividade, eficiência... mais meios e recursos... mais dinheiro sobre o [muito] dinheiro gasto! E quando o "interesse público" - a «magna concertação» - lança um rumo... logo vem a dança das cadeiras, mais nova reforma, remodelação, contestação... mais dinheiro!
Afinal, tudo me leva a crer que o país está "bem organizado" para que assim suceda. O actual Estado de coisas parece interessar a "boa gente" - que mais não seja para que se venda a notícia de que tudo está mal.
»»» O problema de Portugal, não é a Educação, Economia, Justiça, ou "Estado" da Democracia. Não é a falta de recursos e meio. O nosso problema é - o DÉFICE DE CIDADANIA. Falta sentido de responsabilidade e dever num Estado de Direito. - E voltando ao primordial, falta na Escola quem eduque para a «cidadania».


PPP Lusosofonia, Oeiras | 17/11/09 11:51
E só agora é que o 12º se tornou obrigatório.


Elmano, Lisboa | 17/11/09 15:05
Estamos a construir um país de analfabrutos, em que uma boa parte dos jovens abandona precocemente o sistema de ensino, sem ter sequer concluído o 9º ano de escolaridade (ou seja, a 4ª classe do tempo dos nossos avós). E depois admirem-se de a economia portuguesa não ser competitiva! Se esta situação não se altera rapidamente, vamos ser a m... da Europa durante as próximas décadas. Além da responsabilidade dos sucessivos Ministros da Educação (de quase todos os Partidos), há muita responsabilidade dos pais e dos professores!!!


Kurrusivo, | 17/11/09 15:11
Em Portugal, as empresas não querem pagar para terem funcionarios qualificados (as celebres ofertas de emprego que pedem "recém-licenciados com experiencia"). Preferem um "rapazito com boa atitude" (e barato) para ir tapando o buraco, sem perceberem que isso, a prazo, lhes sai muito mais caro.
Como tal, uns não investem na sua formação, outros quando tem qualificações vão para trabalhar para o estrangeiro e conseguem ter uma vida digna.
Assim sendo, quiexam-se de que?

Kurrusivo


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