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António Costa

Como se cria uma diversão

30/01/12 00:04 | António Costa 



Cavaco Silva está a tentar recuperar a credibilidade e autoridade perdidas com o episódio das pensões que não chegam para a sua despesa familiar da pior forma, alinhando ao lado dos mais críticos do Governo, capitalizando descontentamentos e até fragilidades sociais. É feio.

Em dois dias seguidos, primeiro no Expresso e depois no Público, Belém deixa saber que está contra as políticas de Pedro Passos Coelho e a sua visão do Estado e que o ministro das Finanças Vítor Gaspar é um perigoso neoliberal. As notícias não citam fontes oficiais, mas não precisavam, porque a impressão digital de Cavaco Silva é visível sem a ajuda de qualquer CSI. O Presidente da República ainda não digeriu um erro que ele próprio cometeu, indesculpável, ouviu de Passos que os sacrifícios são para todos e, agora, procura fazer saber que é o ponto de referência de quem é afectado pelas mudanças que estão a ser feitas, na saúde, na educação, até no arrendamento, que, segundo Cavaco, está bem como está. É feio, porque aproveita as vulnerabilidades de outros em proveito próprio, não em proveito do País. O Expresso escreve que "não é tanto a dimensão do corte, como a tipologia do corte que o [Cavaco Silva] incomoda". Importa-se de repetir?

Sabe-se, o problema do Portugal, que vive com os rendimentos dos outros, não começou com Sócrates. O anterior primeiro-ministro levou-o a um nível insustentável, mas a verdade é que o que o separa de Cavaco Silva é bem menos do que aquilo que separa o Presidente do actual primeiro-ministro.

Claro, fazer reformas sob pressão, debaixo de uma situação de emergência económica, financeira e social, é difícil e tem custos. O Estado que temos, o monstro, nasceu no segundo mandato de Cavaco Silva, cresceu com António Guterres e engordou com Sócrates, ao ponto de padecer de obesidade mórbida. Agora, Passos e Gaspar têm de tirar o Estado da Economia, transformar o que foi uma intervenção pública sem controlo numa regulação pública ‘regulada'. E Cavaco, pelos vistos, não gosta. Preferia outro Estado, que continuasse a ser o principal gestor da economia, das empresas, enfim, da sociedade. Precisamente o que nos trouxe até aqui.

Os ataques a Passos e, particularmente, ao ministro Vítor Gaspar são um mau serviço ao País. Portugal não está no ponto de viragem, como assegura o Governo, continua muito perto do precipício, e pode cair. Quando Cavaco usa o poder da palavra para minar a autoridade e a força política do ministro das Finanças, quando Belém faz saber que quer a ‘cabeça' de Gaspar, põe em causa o trabalho feito nos últimos seis meses, interna e, sobretudo, internacionalmente. Perante os mercados, que Cavaco conhece bem.

Portugal não gera a riqueza necessária para manter o Estado que tem, para assegurar um Estado social que diminua as assimetrias económicas e sociais, por isso, o Estado tem de ser reduzido, ao mesmo tempo que a economia tem de crescer. As decisões do Governo - as já tomadas e as que estão anunciadas - precisam de fazer o seu caminho, ainda não produziram resultados, são um caminho. São, pelo menos, um caminho diferente daquele que nos conduziu até aqui e de que Cavaco Silva é também, no mínimo, co-responsável.

A rota de colisão entre Cavaco e Gaspar não acelerou nos últimos tempos. O que sucedeu, nos últimos dias, foi a revelação de um Presidente que está preocupado com as suas pensões e que, perante o deslize, quer provocar uma guerra política que substitua, na agenda mediática, aquela discussão. É feio, porque mostra que, para Belém, o País não está primeiro.
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António Costa, Director
antonio.costa@economico.pt




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