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Pedro Adão e Silva

Classe média portuguesa

21/07/09 00:03 | Pedro Adão e Silva 



A classe média anda na boca de toda a gente. Com o aproximar das eleições, os partidos escolheram-na como prioridade social.

Há razões objectivas para que as prioridades políticas tenham mudado, mas há também dificuldades em se definir do que é que se fala quando se fala de classe média e para se encontrar respostas políticas para este grupo social.

Se é hoje possível evoluir da prioridade à pobreza para as respostas sociais às classes médias é porque o país se dotou, com assinalável atraso, de uma rede de mínimos sociais dirigida às formas mais severas de pobreza. Com o Rendimento Mínimo e com o Complemento Solidário para Idosos foi possível aumentar a selectividade das respostas sociais e assegurar um mínimo de recursos materiais a todos os cidadãos, tornando-nos numa sociedade mais decente. Os dados do INE divulgados a semana passada provam-no: uma diminuição da taxa de pobreza entre os idosos (22%) de 4 pontos percentuais em relação ao ano anterior e 7 pontos percentuais se compararmos com 2004. Estes resultados revelam que abandonar a opção de fazer convergir as pensões mínimas com o s.m.n. e optar por conceder um complemento, com a linha de pobreza como referencial, apenas aos pensionistas com pensões baixas em condição de necessidade, revelou-se uma estratégia eficaz.

Mas o sucesso relativo no combate à pobreza serve também para revelar um falhanço: uma fatia muito significativa das famílias portuguesas está fora da rede de apoios sociais de combate à pobreza, mas não deixa por isso de ser pobre, muito por força dos baixos salários dos adultos. São o que chamei aqui há umas semanas - recorrendo à denominação de um estudo elaborado pela TESE - de "famílias sanduíche".

Frequentemente, quando se fala de classes médias em Portugal julgamos estar a falar de agregados com rendimentos em redor dos 2 mil euros mensais. Convém, no entanto, ter presente que a mediana salarial no sector privado encontra-se em redor dos 700 euros, ou seja, 50% da população portuguesa ganha até 700 euros (valor que aumenta se considerarmos o emprego no sector público). Ora são estas famílias que compõem o grosso da classe média. Para aliviar a sua situação material não podemos recorrer às políticas de protecção social, ao mesmo tempo que não podemos ficar à espera que o padrão de especialização da economia portuguesa se modernize o suficiente para permitir ganhos salariais significativos. Qual é o caminho que resta? Recorrer a instrumentos fiscais que redistribuam a favor das "famílias sanduíche", naturalmente retirando benefícios a quem tem rendimentos bem acima da mediana. Pode ser impopular dizê-lo, mas se nada for feito, estamos condenados a ter um conjunto crescente de famílias para as quais a ausência de expectativas sociais se transformará inevitavelmente numa desafectação face ao sistema político.
____

Pedro Adão e Silva, Professor universitário




Comentários (13)

If, Aveiro | 21/07/09 12:35
A Classe Média depois do neoliberalismo socialista do pinto de sousa e "familia" é UMA PRESENÇA AUSENTE....estamos a falar de sombras...
Quatro anos a proletarizá-la e a criar o Precariado, falar de Classe Média é uma prece...remete para questões de fé...de aparições...e dá-me gozo ver o Pinto a pregar aos peixes... e a 0lhar para a azinheira a dizer que vê a Senhora..


vg, | 21/07/09 12:30
"vg" das 12:00 abusador!..


RIcardo, | 21/07/09 10:06
Muito bom artigo, só se esqueceu de atribuir os louros a quem os mereçe! á população em geral (salvo algumas excepções e sabe do que falo) foi ela que conseguiu criar mais valor acrescentado que permite agora acorrer a essas situações e ao governo que soube governar com eficiência, e estou convencido que se este governo continuar irá criar os mecanismos necessários para corrigir a situação a que se refere: alivio fiscal dos que ganham 700 euros que terá que ser feito como o sr diz com uma maior contribuição dos que mais ganham, servirá isso não para tornar as pessoas todas iguais porque nós somos todos diferentes, mas para as tornar menos desiguais e para conseguirmos uma sociedade cada dia mais justa.


Ivo Pereira, | 21/07/09 09:18
E a partir de quanto é que se é considerado "classe rica"? 1000 euros, 5000, 10000. Para conquistar votos vale tudo.
Então quem mais estuda, quem mais investe no seu futuro, mais deverá ser penalizado a favor de quem menos se interessou pela sua formação. Então é isto que se chama solidariedade social.
Mais vale ficar parado.
Por favor parem de nos atirar areia para olhos.


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