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Maria Cavaco Silva entregou as medalhas de honra às vencedoras numa cerimónia que teve lugar no Pavilhão do Conhecimento.
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Adelaide Fernandes, Ana Barbas e Inês Sousa foram as vencedoras das “Medalhas de Honra L’Oréal Portugal para as Mulheres na Ciência”.
São cada vez mais as mulheres cientistas em Portugal. Cem anos depois da primeira professora universitária mulher - Carolina Michaëlis, em 1912 -, "estamos a pensar instituir quotas para os homens na ciência, já que mais de metade do corpo científico que trabalha nos nossos laboratórios é composto por mulheres", ironizou Alexandre Quintanilha na entrega, a semana passada, das "Medalhas de Honra L'Oréal Portugal Para as Mulheres na Ciência" .
As cientistas Ana Barbas, Adelaide Fernandes e Inês Sousa foram as vencedoras destes prémios com as suas investigações na área do cancro da mama, esclerose múltipla e pneumotórax espontâneo, respectivamente, e são três bons exemplos da ciência no feminino.
No projecto de Inês Sousa, a mais jovem das três premiadas, com 29 anos, que investiga no Instituto de Medicina Molecular uma doença complexa e pouco estudada - o pneumotórax espontâneo primário - só trabalham mulheres e a sua opinião é que se antes estas optavam por ficar em casa a cuidar da família, hoje "estão motivadas a continuar a fazer ciência. Mesmo com vidas familiares e filhos. Só têm de se organizar".
Aos 35 anos e com uma filha de quatro, Ana Barbas não abdicava de nenhum dos dois papéis. "Gosto de ser mãe e gosto de ser cientista. Basta gerir o tempo. Não é assim tão difícil", afirma esta investigadora que se dedica a uma doença que afecta muitas mulheres: o cancro da mama.
Acredita que os tempos são de mudança e que as mulheres estão a chegar ao topo em todas as áreas, incluindo a ciência, sublinhando: "Já vamos tendo boas cientistas mulheres em cargos elevados".
Adelaide Fernandes, 33 anos, também ela com uma filha de dois, diz que tem "sorte" porque o marido também é investigador e compreende, por isso, a sua vida profissional. "Conciliamo-nos muito bem. Mas é verdade que as mulheres têm de dar mais, porque têm outra sensibilidade. É preciso persistência e ter horários para a família e depois tempo para a ciência. No meu caso, não desliguei do trabalho, nem mesmo quando tive a minha filha", defende esta cientista, cujo projecto pretende conhecer melhor uma doença altamente debilitante, que afecta cinco mil pessoas em Portugal e mais de um milhão no mundo: a esclerose múltipla. No instituto onde trabalha, o iMed, da Universidade de Lisboa, diz que são já mais mulheres do que homens na equipa de investigadores.
Elza Pais, presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, também presente na cerimónia de entrega destes prémios, lembrou, porém, que apesar do número cada vez mais importante de mulheres nos laboratórios e universidades e da progressão, "que tem sido maior que noutros países, são precisas mais mulheres a liderar na ciência".
Apoio financeiro
Estes prémios da Fundação L'Oréal, em parceria com a Comissão Nacional da Unesco e Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), nasceram para incentivar jovens investigadoras que efectuam a sua pesquisa em Portugal a prosseguir os estudos e concedem um apoio financeiro de 200 mil euros a cada uma das vencedoras. Um apoio que é muito importante, dizem as investigadoras, dada a escassez de verbas com que se deparam. "Este tipo de apoios é óptimo para prosseguirmos o nosso trabalho. Precisamos de dinheiro e estamos muito limitados em termos de entidades financiadoras. Há uma grande competitividade, porque essencialmente o que temos vem da FCT", afirma Adelaide Fernandes.
Ana Barbas pretende mesmo dedicar algum do seu dinheiro do prémio à divulgação em congressos internacionais da ciência que se faz em Portugal. "É preciso dar mais visibilidade ao nosso trabalho lá fora", sublinha.
Miguel Seabra, presidente da FCT, agradeceu à L'Oréal o seu mecenato científico. "A FCT tem estado demasiado sozinha no financiamento da ciência. Precisamos de parceiros para não deixar cair a ciência", disse este responsável.
Os projectos das vencedoras
Com estes apoios inesperados, as três cientistas pretendem avançar muito mais rapidamente nas suas investigações do que fariam sem este acréscimo de financiamento, destinando, desde logo, uma verba para a aquisição de equipamento. Ana Barbas pretende criar anti-corpos que bloqueiem o anormal crescimento e divisão celular observados no cancro da mama, tentando conseguir uma regressão tumoral. Adelaide Fernandes trabalha no sentido de descobrir como alterar a função de uma proteína (a S100B) de forma a evitar as incapacidades - que passam pela perda de locomoção e visão - dos doentes com esclerose múltipla. No caso de Inês Sousa, a jovem cientista procura descobrir quais os genes que podem contribuir para o pneumotórax espontâneo primário, doença com altas taxas de recorrência e que leva ao colapso de pelo menos um pulmão sem razão aparente.
A L'Oréal já apoiou 25 jovens cientistas em Portugal, desde o lançamento deste programa a nível nacional, em 2004.
O prémio: L'Oréal para as Mulheres na Ciência
Aberto à participação de todas as investigadoras que desenvolvam o seu trabalho em Portugal no campo das ciências da vida e ambiente, com idade até aos 35 anos e doutoradas há não mais de cinco, o programa "L'Oréal Portugal para as Mulheres na Ciência" inspira-se no L'Oréal Unesco for Women in Science, criado há 14 anos e presente em 35 países. Integrado na Fundação L'Oréal, este programa distinguiu e apoiou já, em Portugal, 25 jovens cientistas, enquanto, a nível mundial, foram 67 as mulheres consagradas. Lançado em 2004, numa parceria da L'Oréal Portugal, Comissão Nacional da Unesco e Fundação para a Ciência e Tecnologia, este desafio vai já na sua 8ª edição em Portugal. O júri científico, presidido por Alexandre Quintanilha, analisou, este ano, perto de 80 candidaturas e seleccionou três projectos, que poderão contribuir para a compreensão de doenças que afectam milhões de indivíduos e para as quais o mundo continua à espera de respostas no caminho da cura.
As três premiadas
Travar as metástases do cancro da mama
Dedica-se ao estudo do cancro da mama, a doença oncológica que afecta e mata mais mulheres em Portugal. A sua investigação pretende criar anticorpos humanos capazes de bloquear a anormal divisão e crescimento celular para assim travar o crescimento extensivo e ramificado dos pequenos capilares sanguíneos que promovem o crescimento do tumor. Os anticorpos bloqueadores poderão representar uma abordagem terapêutica inovadora no tratamento do cancro da mama metastático. Ana Barbas vai recorrer à técnica ‘dephage display', que possibilita o isolamento de anticorpos humanos.
Ajudar na recuperação da esclerose múltipla
A investigação de Adelaide Fernandes quer esclarecer como o aumento dos níveis de uma proteína - a S100B - pode estar na origem de um atraso ou redução na recuperação após um surto da esclerose múltipla, de modo a conseguir reduzir a extensão dos danos, que chegam a levar à perda de funções essenciais como a visão ou a locomoção. Com o seu projecto, Adelaide Fernandes quer modificar a função desta proteína e assim ajudar à recuperação dos doentes, recorrendo a tecnologia de aptâmeros - conhecidos pela elevada especificidade, baixa toxicidade e pela rápida e acessível produção. A esclerose múltipla afecta mais de um milhão de pessoas no mundo - perto de metade na Europa e cerca de cinco mil em Portugal - sendo considerada a principal causa de incapacidade não-traumática em jovens adultos.
Conhecer os genes do pneumotórax espontâneo
Propõe-se compreender a arquitectura genética do pneumotórax espontâneo primário, identificando as variantes genéticas que podem aumentar a susceptibilidade a esta doença complexa e pouco estudada, que consiste no colapso de pelo menos um pulmão, sem razão aparente. Inês Sousa espera identificar os factores genéticos de risco e de recorrência da doença, contribuindo para que possam ser implementadas medidas preventivas junto dos indivíduos de risco, bem como desvendar os mecanismos patogénicos que poderão levar ao desenvolvimento de novas terapêuticas. O pneumotórax espontâneo primário apresenta taxas de recorrência elevadas e este é, segundo se sabe, um estudo pioneiro a nível mundial, que está a ser feito com a população portuguesa em colaboração com equipas médicas de vários hospitais do país.
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